Pinturas Rupestres

O número de sítios descobertos pelos pesquisadores da FUMDHAM aumenta anualmente. Em 2012, estão cadastrados 1.028 com arte rupestre, sendo 735 sítios com pinturas, 206 com pinturas e gravuras e 87 somente com gravuras.

Escavações realizadas nos sítios com arte rupestre permitiram obter datações a partir de pedaços da parede pintada, que se destacaram e caíram no solo, ficando depois enterrados pelos sedimentos os quais aí se depositaram. Alguns desses blocos com pinturas foram encontrados ao lado de fogueiras pré-históricas cujos carvões puderam ser datados pela técnica do carbono 14. Um exemplo é a Toca do Boqueirão da Pedra Furada, onde rochas com pinturas foram encontradas em uma camada datada de 29.860 anos. Isso significa que essa é a idade mínima para a pintura e data o momento em que o bloco já estava no solo.

Nas grutas existentes nos maciços calcários, vizinhos ao Parque Nacional, foram encontradas figuras pintadas cobertas por camadas de calcita. Essa calcita pode ser datada entre 33.000 e 35.000 anos para figuras da Toca da Bastiana.

Os primeiros vestígios da presença do homem nessa região datam de 100.000 anos. Eles foram encontrados nas escavações da Toca do Boqueirão da Pedra Furada. A região era então completamente diferente: o planalto era coberto pela floresta amazônica e, na planície, o bioma era a mata atlântica. Havia muitos rios, flora e fauna eram diversificadas e muito ricas, o que permitia que os homens vivessem bem e se desenvolvessem.

Os grupos étnicos que habitaram a região evoluíram culturalmente, e as pinturas rupestres constituem um testemunho dessa transformação. Pode-se observar a evolução dos registros gráficos rupestres mediante a identificação de mudanças nas técnicas de pintura ou de gravura empregadas, mas também nas variações dos temas e na maneira como eles são representados. Essas mudanças não são resultado do acaso, mas de uma transformação social gradativa que se manifesta em diferentes aspectos da vida dos grupos humanos, entre os quais está a prática gráfica.

O costume de se exprimir graficamente é uma manifestação do sistema de comunicação social. Como tal, a representação gráfica é portadora de uma mensagem cujo significado só pode ser compreendido no contexto social no qual foi formulado. Trata-se de uma verdadeira linguagem, na qual o suporte material é composto por elementos icônicos, cuja completa significação perdeu-se definitivamente no tempo por não conhecermos o código social dos grupos que o fizeram. Não podendo decifrar esse código, resta uma possibilidade de se conhecer mais sobre os grupos étnicos da Pré-História através da identificação dos componentes do sistema gráfico próprio de cada grupo e de suas regras de funcionamento. Efetivamente, cada grupo étnico possui um sistema de comunicação gráfico diferente, com características próprias. Assim, mesmo que não possamos decifrar a sua significação, será possível identificar cada um dos conjuntos gráficos utilizados pelos diferentes grupos. Quando os conjuntos gráficos permitem o reconhecimento de figuras e de composições temáticas, existe também a possibilidade de identificar os elementos do mundo sensível que foram escolhidos para ser representados. Essa escolha é de fundo social, sendo também caracterizadora de cada grupo, pois oferece indicadores sobre os elementos do entorno e as temáticas que são valorizadas por cada sociedade.

As pinturas e gravuras rupestres são então estudadas com a finalidade de poder caracterizar culturalmente as etnias pré-históricas que as realizaram, a partir da reconstituição de um procedimento gráfico de comunicação que faz parte dos respectivos sistemas de comunicação social. Numa segunda instância, esse estudo pretende ― quando o corpus gráfico em questão fornece os elementos essenciais de reconhecimento ― extrair os componentes do mundo sensível que foram escolhidos para fazer parte de tal sistema gráfico. Fica então excluída qualquer possibilidade de interpretação de significados, pois toda afirmação se situaria em um plano de natureza conjectural. Na perspectiva de estudo utilizada, entende-se que a cada tradição gráfica rupestre pode associar-se um grupo étnico particular, na medida em que se possa segregar conjuntamente outros componentes caracterizadores de natureza cultural, tais como uma indústria lítica tipificada, uma utilização própria do espaço ou formas específicas de enterramentos.

Em razão da abundância de sítios e da diversificação de pinturas e gravuras, foi possível estabelecer uma classificação preliminar, dividindo-as em cinco tradições, das quais três são de pinturas e duas de gravuras.

As tradições são estabelecidas pelos tipos de grafismos representados e pela proporção relativa que estes guardam entre si. Dentro das tradições, podem-se, às vezes, distinguir subtradições segundo critérios ligados a diferenças na representação gráfica de um mesmo tema e a distribuição geográfica. Para cada tradição ou, se for o caso, subtradição, é possível distinguir-se diferentes estilos que são estabelecidos a partir de particularidades as quais se manifestam no plano da técnica de manufatura gráfica e pelas características da apresentação gráfica da temática.

Duas das tradições, a Nordeste e a Agreste, já puderam ser datadas graças aos resultados das escavações e sondagens.

Na área do Parque Nacional, nos terrenos da bacia sedimentar, domina a tradição Nordeste de pintura rupestre. Ela é caracterizada pela presença de grafismos reconhecíveis (figuras humanas, animais, plantas e objetos) e de grafismos puros, os quais não podem ser identificados. Essas figuras são, muitas vezes, dispostas de modo a representar ações, cujo tema é, às vezes, reconhecível. Os grafismos puros, que não representam elementos conhecidos do mundo sensível, são nitidamente minoritários. As figuras humanas e os animais aparecem em proporções iguais e são mais numerosos que as representações de objetos e de figuras fitomorfas. Algumas representações humanas são apresentadas revestidas de atributos culturais, tais como enfeites de cabeça, objetos cerimoniais nas mãos, etc. As composições de grafismos representando ações ligadas sejam à vida de todos os dias, seja a cerimoniais são abundantes e constituem a especificidade da tradição Nordeste. Quatro temas principais aparecem nessa tradição: dança, práticas sexuais, caça e manifestações rituais em torno de uma árvore. São também frequentes as composições gráficas representando ações identificáveis, mas cujo tema não podemos reconhecer; um exemplo desse caso é uma composição na qual uma série de figuras humanas parecem dispostas umas sobre os ombros das outras formando uma pirâmide, que faz evocar uma representação acrobática. Outro tipo de composição gráfica identificada com frequência em todas as subtradições da tradição Nordeste é designada como composição emblemática. Trata-se de figuras dispostas de maneira típica, com posturas e gestos de pouca complexidade gráfica, mas que se repetem sistematicamente. Uma das composições emblemáticas dessa tradição representa duas figuras humanas, colocadas costa contra costa, frequentemente acompanhadas de um grafismo puro.

Graças à abundância de sítios e à sua larga distribuição espacial e temporal, pudemos classificá-la em subtradições e estilos. Atualmente, conhecemos as subtradições Várzea Grande e Salitre, no sudeste do Piauí, e a subtradição Seridó, no Rio Grande do Norte.

A subtradição Várzea Grande, a mais bem estudada e representada, está dividida em estilos que se sucedem no tempo: Serra da Capivara, o mais antigo, Complexo estilístico Serra Talhada e Serra Branca, estilo final na área de São Raimundo Nonato.

O estilo Serra da Capivara apresenta grafismos cujos contornos são completamente fechados, desenhados por traços contínuos e uma boa técnica gráfica. Na maioria das vezes, sobretudo quando o tamanho permite, as figuras são pintadas inteiramente com tinta lisa. As representações humanas são pequenas, geralmente menores que as figuras animais. Estas últimas são, em geral, colocadas em um local visível e dominam o conjunto das composições; a cor predominante é o vermelho.


Tradição Nordeste - Sítio Arqueológico Toca da Entrada do Pajaú

O estilo Serra Branca apresenta figuras humanas com uma forma muito particular do corpo, o qual foi decorado por linhas verticais ou por traçados geométricos cuidadosamente executados. Geralmente, os animais são desenhados por uma linha de contorno aberta; alguns têm o corpo preenchido por tinta lisa, mas a maioria apresenta um preenchimento geométrico semelhante aos dos seres humanos.

O complexo estilístico Serra Talhada é muito mais heterogêneo e possui diversas características classificatórias que não estão sempre presentes em todos os sítios pertencentes à classe, mas, quando uma falta, outra está representada.

A classe caracteriza-se pelas séries de figuras humanas dispostas em linha e a utilização de várias cores (vermelho, branco, cinza, marrom, amarelo), sendo comuns as figuras bicromáticas ou tricromáticas.

Aparecem também figuras com características gráficas muito peculiares; algumas delas são humanas e apresentam as extremidades exageradamente compridas. Há ainda figuras muitos pequenas. A técnica de pintura do corpo das figuras se diferencia: além da tinta lisa e dos traçados gráficos complexos, aparecem outros tipos, tais como pontos ou zonas reservadas.

Os dados atualmente disponíveis permitiram propor uma explicação segundo a qual essa sucessão de estilos não representa diferentes unidades estilísticas perfeitamente distintas e segregáveis, mas sim, reflete uma evolução lenta e contínua que, durante cerca de 20.000 anos, introduziu micromodificações no estilo básico Serra da Capivara. Isso levou a um desenvolvimento em contínuo da subtradição Várzea Grande, sendo o complexo Serra Talhada resultado desse processo evolutivo que acumulou microdiferenças, as quais resultaram no estilo final Serra Branca.

As datações obtidas e a análise da indústria lítica confirmam as conclusões as quais chegamos, graças ao estudo das pinturas e gravuras rupestres. A tradição Nordeste, evidente há 27.000 anos, parece desaparecer da região por volta de -7.000/-6.000 anos.

Em certos sítios da bacia sedimentar Maranhão-Piauí, ao lado da tradição Nordeste, aparece a tradição Agreste desde 30.000 anos. Ela se caracteriza pela predominância de grafismos reconhecíveis, particularmente da classe das figuras humanas, sendo raros os animais. Nunca aparecem representações de objetos, nem de figuras fitomorfas. Os grafismos representando ações são raros e retratam unicamente caçadas. Ao contrário da tradição Nordeste, as figuras são representadas paradas: não há movimento nem dinamismo. Os grafismos puros, muito mais abundantes do que na tradição Nordeste, apresentam uma morfologia bem diferente e diversificada.

A técnica de desenho e de pintura da tradição Agreste é de má qualidade, os desenhos são canhestros e não permitem, na maioria dos casos, a identificação das espécies animais. O tratamento da figura é limitado e de péssima feição.

A repartição espacial da tradição Agreste é, grosso modo, a mesma da tradição Nordeste. Entretanto, há regiões do norte e centro do Piauí e do sudoeste de Pernambuco onde aparecem sítios com pinturas da tradição Agreste, mas nunca se encontraram pinturas Nordeste.

Na área arqueológica do Parque Nacional, a tradição Agreste apresenta diversidades estilísticas manifestas que levaram, numa primeira instância analítica, a propor-se subclasses para essa região. Os estudos sobre essa tradição são, porém, ainda pouco desenvolvidos para que se possa ser mais preciso. Pode-se, entretanto, afirmar a existência de duas modalidades estilísticas que variam tanto na técnica utilizada como nas temáticas graficamente representadas. Uma classe incluiria as pinturas cujas características são as típicas dela: feitas de maneira grosseira, de grande tamanho, sem preocupação pela delineação da figura e com um preenchimento realizado negligentemente, mas cobrindo extensas superfícies. Outra modalidade da tradição Agreste que poderia constituir uma classe incluiria as figuras que são de menor tamanho, mas sempre maiores que as da tradição Nordeste, feitas com maior cuidado e com um preenchimento mais controlado, cuja tinta escorreu menos. Esta última, segundo os dados disponíveis, seria a mais antiga.

Não se conhece até agora o foco de origem da tradição Agreste. Na área do Parque Nacional, ela se encontra associada a uma indústria lítica grosseira, de técnica pouco aprimorada, que utiliza como matéria-prima, prioritariamente, quartzo e quartzito.

Até hoje, não foi realizada nenhuma escavação, apenas algumas sondagens em sítios pertencentes às outras tradições de registros rupestres da área. Desse modo, pouco podemos adiantar sobre elas além de uma descrição sumária


Tradição Agreste - Sítio Arqueológico Toca da Entrada do Baixão da Vaca

A tradição Geométrica é caracterizada por pinturas que representam uma maioria de grafismos puros, mãos, pés, figuras humanas e de répteis extremamente simples e esquematizadas. Essa tradição, segundo informações ainda pouco abundantes, pareceria ser originária do nordeste do Estado do Piauí. É na Serra de Ibiapaba, limite com o Ceará, onde existe a maior concentração até agora conhecida. O Parque Nacional de Sete Cidades é portador de sítios pertencentes a essa tradição de pinturas. Na área do Parque Nacional Serra da Capivara, ela aparece isolada em um único sítio na planície pré-cambriana, mas aparece também como intrusão gráfica em outros sítios, pois alguns grafismos foram feitos sobre painéis em abrigos das tradições Nordeste e Agreste.


Tradição Geométrica - Sítio Arqueológico Toca do Macaco

Duas são as tradições de gravuras: Itacoatiaras de Leste e Itacoatiaras de Oeste. Para a primeira, temos resultados de prospecções e sondagens que demonstram que ela está ligada a povos caçadores-coletores. A segunda foi datada de 12.000 anos em Mato Grosso e aparece nesse Estado associada a uma bela indústria lítica que utilizou quartzito e sílex.

Itacoatiaras de Leste é uma tradição típica de todo o Nordeste brasileiro, e seus painéis ornam as margens e os leitos rochosos de rios e riachos do sertão, marcando cachoeiras ou pontos nos quais a água persiste mesmo durante a época da seca.

Itacoatiaras de Oeste, representada unicamente por grafismos puros, existe desde a fronteira da Bolívia até o limite oeste da área do Parque Nacional, indo para o sul, onde aparece até o norte de Minas Gerais. Os painéis dessa tradição ornam paredes situadas perto de cachoeiras, lagos, fontes ou depósitos naturais de água. Um único sítio dessa tradição aparece na área do Parque Nacional, mas fora de seus limites.


Gravuras rupestres - Sítio Arqueológico Toca da Roça do Sítio do Brás I

É preciso também fazer menção a um único sítio de gravuras que apresenta características que são diferentes das duas tradições de gravuras acima mencionadas. Ainda não dispomos de elementos para afirmar se se trata de uma tradição diferente ou de um fenômeno isolado. As figuras gravadas representam uma maioria de grafismos puros e algumas formas animais e humanas muito esquematizadas. O Sítio Caldeirão do Deolindo é um depósito natural de água ― um caldeirão ― e está situado dentro do Parque Nacional, no alto do planalto.


Gravuras rupestres - Sítio Arqueológico Caldeirão do Deolindo

       
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