Patrimônio Natural

Fronteira Ecológica

A ecologia é a ciência que se ocupa de entender a natureza. Na busca de entender as complexas relações que regem a harmonia entre seres vivos e o ambiente que elas ocupam, a ecologia se concentra em identificar a função de cada organismo, ou espécie (grupo de organismos que descendem uns dos outros e que em condições naturais não cruzam com organismos de outro grupo), e como o conjunto destes organismos, as populações de espécies diferentes, são modificados e se adaptam aos fatores climáticos, geológicos, químicos e até mesmo às ações do homem.

As “matas brancas” do nordeste do Brasil ou caatingas, como as chamavam os nativos, são formações biogeográficas caracterizadas por plantas xeromórficas (que perdem todas suas folhas na época seca). Ocupa 650.000 km 2 do Nordeste do Brasil, exceto a faixa litorânea, dos quais apenas 0,1 % encontram-se preservados legalmente.

O Parque Nacional Serra da Capivara, encravado na caatinga, é fruto de uma história geológica, climática e biológica complexa. A diversidade da vida presente hoje, só foi possível graças a variabilidade dos relevos e aos múltiplos habitats escavados em milhares de anos pela força das águas.

As condições climáticas, permitiram que a floresta tropical úmida ocupasse até o Piauí há cerca de 60.000 anos. Com a retração das florestas úmidas imposta pelo início do ressecamento, por volta dos 18.000 anos, algumas espécies desapareceram, outras se retrairam com seus ambientes originais, algumas resistiram encravadas em refúgios mais úmidos (os boqueirões ou canyons) e são os testemunhos vivos desta história. As espécies que permaneceram foram, cada uma de sua maneira, animais e plantas, se adaptando aos diversos ambientes da caatinga. Hoje estas espécies são novas espécies, típicas dos novos tempos.

Espécies testemunhos das épocas úmidas podem ser ainda encontradas na região como uma população relictual de jacarés amazônicos da espécie Cayman crocodilus que vive na Fazenda Veneza (nos limites do Parque) e constitui o limite de ocorrência, a sudeste, desta espécie no país. Duas espécies de louro, Ocotea fasciculata e Poutteria reticulata, árvores tipicamente amazônicas ainda estão presentes no Parque.

O contato com o cerrado e seus elementos de flora e fauna estão presentes até hoje. Esta relação mais duradoura entre caatinga e cerrado, permite que espécies de animais, principalmente de grande porte e/ou de maior mobilidade, sejam comuns a estes dois ecossistemas. Contudo, nem de longe a caatinga e o cerrado são iguais. A ocorrência natural do fogo, comum no cerrado, e inexistente na caatinga, a não ser quando provocado pelo homem, e a disponibilidade de água talvez sejam as principais diferenças.

O clima impõe o ritmo biológico no semi-árido e economizar água é essencial para todos. As chuvas são raras, irregulares e as temperaturas altas. Não há rios perenes no Parque. São comuns os longos períodos de estiagem, como a grande seca de 1983, onde a precipitação foi zero por 3 anos. Há porem os anos bons, como 1996 e 1997, quando as chuvas se extenderam de outubro a fim de maio (normal-mente vão de outubro a março), totalizaram mais de 990 mm distribuidos por muitos dias e sobre uma ampla área.

Os “caldeirões” se enchem garantindo suprimento para os próximos anos.

O relevo é determinante nas diferenças locais de precipitação e temperatura. A chapada, a planície e os baixões (declives mais ou menos suaves da chapada para a planície), são mais secos e quentes, próximo aos paredões das serras e no interior dos boqueirões o micro-clima é mais úmido e fresco. A extensão (às vezes maior que 8 km) e a altura (chegando a 200 m) dos paredões proporcionam mais sombra, barram o vento diminuindo a evaporação e condensam as correntes de ar formando as chuvas orográficas.

Como vimos, o arranjo da cobertura vegetal é determinado, principalmente, pela insolação e o tipo de solo. Assim a chapada, a planície e os baixões são cobertos pelas caatingas arbustiva e arbórea que variam de alta, alta densa, baixa aberta, baixa, média densa a baixa densa. No interior dos boqueirões estão as florestas semi-decíduas com árvores altas (até 30 m) e que na sua maioria mantém folhas verdes todo o ano. Entre as mais frondosas, podemos encontrar as gameleiras (Ficus rufa) e os pau d’arco (Tabebuia impetiginosa). Ao redor dos caldeirões e olhos d’água florescem samambaias, avencas, imbaúbas (Cecropia cf. peltata) e gramas. Nos lajedos, extensões de afloramentos rochosos, comuns em todo o Parque, e que acompanham as bordas superiores dos boqueirões, encontram-se as maiores concentrações e variedades de cactáceas e bromeliáceas.

A taxa de endemicidade (espécies típicas) da flora é alta. Das 615 espécies de plantas encontradas na caatinga 72 % são específicas do sudeste do Piauí. Estas plantas, arrumadas como num mosaico, estão expostas ao sol durante quase todo o dia e se fixam em solos basicamente arenosos e/ou rochosos, incapazes de acumular água de modo suficiente. Folhas pequenas, a capacidade de perdê-las totalmente na seca, raizes profundas, a presença de numeroso espinhos, os caules capazes de estocar água em seus tecidos e a presença de inúmeras espécies com tubérculos (raizes ou caules subterrâneos que acumulam substâncias nutritivas) são algumas das adaptações que permitem a sobrevivência destas plantas. O extrato herbáceo é efêmero e só aparece, ainda que mal representado, na época das chuvas. Os cipós (lianas) são abundantes.

A decomposição da caatinga é lenta e dificultada pela baixa umidade e altas temperaturas. A camada de folhas secas acumulada no solo (serrapilheira) chega, em alguns locais a mais de 30 cm de altura e é o habitat da lagartixa-mole (Micrablepharus maximiliani), muitos besouros e outros artrópodes. O processo de decomposição e enriquecimento do solo é acelerado por ajudantes competentes. São cupins e formigas de várias espécies que, em batalhões, transportam folhas e restos orgânicos da superficie, através das galerias subterrâneas dos cupinzeiros e formiguerios, para as camadas mais profundas do solo onde a temperatura é menor, a umidade é maior e assim o apodrecimento é possível. São insetos muito abundantes na chapada, embora ocorram em todo o Parque.

Apesar deste regime, muitas vezes drástico e cruel aos nossos olhos, a vida na caatinga está sempre fervilhando. Mesmo quando tudo está seco e a vegetação parece morta há um harmonioso rodízio de florações e frutificações que garantem a reprodução das plantas através de um intrínseco relacionamento entre polinizadores (insetos, principalmente as muitas espécies de abelhas, beija-flores, como a espécie endêmica Phaetornis gounellei e morcegos) e dispersores de sementes (animais que ingerem os frutos e vão espalhar as sementes ingeridas através de suas fezes). No parque os principais dispersores de sementes são os morcegos frugívoros, como o Artibeus planirostris, muitas aves, o guariba (Alouatta caraya) e a raposa (Cerdocyon thous).

Neste lugar, os animais, assim como as plantas, também se adaptaram às condições físicas do ambiente. Entre as adaptações selecionadas destacam-se as fisiológicas, como a capacidade de assimilar água dos alimentos e transpirar pouco e, principalmente, as adaptações comportamentais. A maioria dos animais tendem a ser crepusculares e boa parte são noturnos escondendo-se durante o dia em abrigos sombreados, nas tocas e frestas das rochas ou em buracos escavados no solo. Cobras e lagartos são exceções e permanecem ativos nas horas quentes do dia por que necessitam do calor do sol para manter sua temperatura corporal. Entretanto, espécies como a cascavel (Crotalus durissus), a jararaca da caatinga (Bothrops erythromelas) e a coral verdadeira (Micrurus ibiboboca) apresentam hábitos crepusculares e noturnos em concordância com o período de atividade de suas presas. Mesmo as aves, animais tipicamente diurnos evitam as horas mais quentes do dia, apresentando atividade maior nas primeiras horas do amanhecer e nas últimas do entardecer.

Um fenômeno inusitado e tipicamente comportamental pode ser visto na ocasião da primeira chuva na margem de açudes secos ou ao longo das bacias coletoras de água. Alguns minutos após a enxurrada, dar alguns passos significa pisar em dezenas de sapos que “brotam” do chão. São tantos e aparecem tão rápido que são conhecidos como “sapos da enxurrada”. São sapos da espécie Bufo granulosus que se mantêm enterrados, a cerca de 15 cm de profundidade nas margens destas reservas de água por que, mesmo quando estas já estão secas ainda guardam bastante umidade permitindo-lhes viver. A chuva traz o sinal de que a vida na superfície é possível, que há local propício para as posturas e chances de sobrevivência de ovos e girinos. Algumas outras espécies de anfíbios também se enterram em locais que mantém umidade mas, a maioria está totalmente restrita a locais onde a água é sempre disponível.

A presença permanente de água, também é a condição para a sobrevivência dos pequenos lambaris, Astyanax sp., encontrados em corpos d’água aparentemente isolados, mas que possivelmente podem estar ligados por alguma via subterrânea a outras reservas de água.

Refugiar-se ou manter-se sob algum tipo de forma de resistência ou dormência são estratégias diferentes usadas com o mesmo fim por muitas espécies de animais e plantas em ambientes semi-áridos. Estas estratégias fazem com que os indivíduos só estejam ativos e visíveis nas épocas propícias e geralmente em grande abundância. Este é o caso das borboletas da família Pieridae que surgem aos milhares após as chuvas e de uma espécie de aranha social, Mastophora sp., que somente durante o período de chuvas faz teias colonias, com até 446 indivíduos, e com 15 m de comprimento e 6m de altura. Encontramos outros exemplos em muitas espécies de artrópodes.

Da mesma forma, o mês de setembro é a época onde a maioria dos mamíferos e aves se acasalam. Os nascimentos começam por volta do mês de outubro e coincidem com a época para qual se espera a ocorrência das primeiras chuvas.

Frente às dificuldades impostas pelo clima, a presença de numerosos boqueirões tem importância estratégica para a fauna. Animais que necessitam de sombra, umidade e utilizam as folhas como componente principal de sua dieta, vivem quase que restritos a estes habitats. Outros se refugiam pelo menos uma parte do dia ou do ano dentro dos boqueirões. Os inúmeros abrigos disponíveis nos paredões que delimitam estes boqueirões complementam a importância deste habitat, pois aí nidificam araras azuis (Ara chloroptera), papagaios (Amazona aestiva), periquitos (Aratinga cactorum e Aratinga leucophtalma), a águia chilena (Geranoaetus melanoleucos), espécies de andorinhas e ainda outras aves. A “lagartixa-da-serra” (Tapinurus helenae) é uma espécie nova só encontrada no Parque Nacional Serra da Capivara e tem seu habitat totalmente restrito as áreas rochosas dos paredões e lajedos onde se alimenta de insetos e frutos de cactus como os da coroa-de frade, Melocactus bahiensis.

Os mocós (Kerodon rupestris), roedor endêmico das caatingas também vive exclusivamente nos lajedos e paredões das serras. São muito sensíveis aos distúrbios humanos, principalmente a voz. São folívoros mas durante os períodos secos se alimentam basicamente das cascas e resinas das árvores. Estão presentes nesta região há pelo menos 30.000 anos, datação obtida de coprólitos (fezes mumificadas naturalmente) encontrados nos sítios arqueológicos.

A presença de um tipo de verme intestinal, o nematoda Trichuris sp. só encontrado nos coprólitos, comprova que nesta época o clima era mais úmido, o que permitia a manutenção desta parasitose. Para completar seu ciclo e contaminar novos hospedeiros, o Trichuris lança seus ovos ao solo através das fezes de seu hospedeiro. Lá, se as condições de temperatura e umidade forem favoráveis o ovo eclode liberando uma larva que passa por 3 estágios, sendo que a última forma vai penetrar ativamente através da pele de um novo hospedeiro. Hoje, esta verminose está extinta nos mocós da região, a falta de umidade no solo impossibilitou a sobrevivência dos ovos e larvas no solo. Destino diferente teve o Strongyloides ferreirai, outro nematoda que por ter seu ciclo de contaminação direto, isto é a larva passa de um hospedeiro a outro, é menos suscetível às modificações climáticas. Esta verminose está presente até hoje nos mocós do Parque.

Como os recursos disponíveis no interior dos boqueirões são limitados, e procurá-los em outros lugares significa passar de um boqueirão para outro, por cima da chapada seca e quente, os boqueirões podem ser considerados como verdadeiras ilhas para algumas espécies. Este é o caso dos guaribas, Alouatta caraya, maiores primatas do Parque e que estiveram quase que desaparecidos por pelo menos 10 anos. Sua distribuição está restrita aos boqueirões onde se alimentam de brotos e folhas como as de pau d’arco (Tabebuia impetiginosa), frutos de jatobá (Hymenaea sp.), grão de galo (Cordia piauihiensis) e sementes de maçanzeira (Pouteria sp.). São animais sociais e o tamanho do grupo e as condições físicas dos animais refletem a diversidade (riqueza e abundância) de alimento a que o grupo tem acceso. No Parque, os grupos de guariba até hoje observados não ultrapassam 6 indivíduos (normalmente 1 macho, 2 fêmeas e 2 a 3 jovens e filhotes). Provavelmente, o tamanho do grupo e o nível de perturbação antrópica dentro dos boqueirões levou esta espécie quase ao desaparecimento. As medidas de proteção, principalmente a restrição do uso dos boqueirões, permitiu que a espécie se restabelecesse. Em 1996, pudemos identificar 4 grupos dentro do Parque.

Ainda não sabemos exatamente o grau de isolamento das espécies restritas aos boqueirões. Certamente varia de espécie para espécie e de acordo com a sazonalidade. Por isso, supomos que mesmo que demore muito tempo, em algum momento, principalmente quando o verde na caatinga é continuo, alguns indivíduos conseguirão transpor estas barreiras naturais e se encontrar com outros individuos de sua espécie que habitam outros boqueirões ou mesmo outras áreas. Estas possibilidades de encontros permitem que os genes (unidades funcionais da hereditariedade) de um grupo se misturem com os de outro, garantindo à população uma variabilidade maior de características genéticas que podem significar, na prática, uma maior resistência à determinadas doenças, a possibilidade de adaptação às mudanças do ambiente e muito mais. A manutenção deste fluxo gênico entre indivíduos e populações é que garante a perpetuação das espécies. Contudo a dinâmica deste fluxo depende diretamente da continuidade e da integridade dos ambientes silvestres, pois é através deles que animais e plantas poderão se dispersar e manter tais encontros. A continuidade de ecossistemas e das áreas de transição entre eles é hoje a maior ameaça à sobrevivência das espécies e a manutenção da biodiversidade. Cada vez mais as áreas naturais estão se tornando ilhas cercadas por cidades, plantações, pastos e estradas. O Parque Nacional Serra da Capivara ainda possue boa parte de caatinga em seu entorno, e se desejarmos mantê-lo assim devemos cuidar para que estas áreas de continuidade não sejam degradadas ou totalmente destruídas pelo crescimento não planejado.

Assim como os boqueirões, a presença de algumas espécies parecem ser chave para o equilibrio deste ecossitema. Estas espécies podem ser espécies que provém alimento e abrigo para muitas outras espécies, de muitos grupos diferentes, ou serem espécies predadoras que controlam o crescimento de suas presas mantendo-as em equilibrio. Nem todas as espécies de importância coletiva ou chave já são conhecidas mas, algumas já puderam ser identificadas. Entre elas, está o angico (Anadenanthera macrocarpa), espécie que já sofre erosão genética no nordeste do Brasil e que nas suas formações em bosques provém abrigo e alimento, como a sua goma largamente utilizada por insetos, aves, e mamíferos como o soinho, ou mico-estrela (Callithrix jacchus) e o mocó. O desaparecimento quase total do tamandua-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) vem causando sério desequilibrio na chapada, seu habitat predileto. A diminuição das populações de edentados e principalmente, a extinção regional do tatu canastra (Priodontes maximus),vem causando sério desequilibrio ao ecossistema do Parque. A ausência destas espécies predadoras de cupins e formigas, respectivamente, possibilitou O crescimento descontrolado destes insetos. Na chapada já observamos uma taxa superior a 70% de árvores atacadas por cupins.

Apesar de inúmeros estudos interdisciplinares já realizados e em andamento em toda a caatinga, a riqueza deste ecossistema e também do Parque Nacional Serra da Capivara ainda não é totalmente conhecida. A tendência geral de extender a pobreza das populações humanas à pobreza da biodiversidade é comum, mas muito longe da verdade. Os atuais estudos mostram que a caatinga é um ecossistema mais rico do que se suponha e do que nos contam os relatos tradicionais. As novas e abundantes espécies recentemente descobertas no Parque, são a prova de que ainda há muito o que se conhecer. Cada micro habitat a ser estudado promete surpresas inesperadas.

Pelas variadas influências sofridas ao longo de milhares de anos, podemos reconhecer o Parque Nacional Serra da Capivara como uma fronteira ecológica, o cenário ativo de uma história ainda não acabada e que somente os descendentes dizimados do homem pré-histórico poderiam nos contar em detalhes. Sem o auxílio dos povos nativos, cabe à ciência desvendar esta história. Mais do que isso, cabe à ciência nos ensinar a admirar e a conservar este magnífico e surpreendente ecossistema.

 

Fumdham © 2009.