Paleontologia
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| Eremotherium - crânio. |
A Megafauna`
A fauna fóssil da região do Parque Nacional Serra da Capivara inclui mais de 30 espécies, das quais as maiores (uma preguiça gigante e um mastodonte) pesavam mais de 5 toneladas. Mas foram também coletados faunas de pequenos mamíferos, pesando menos de 5 quilos, a maioria roedores. Além de mamíferos, existem outros vertebrados : pássaros, répteis (entre eles jacarés e grandes tartarugas) e peixes. A mudança do clima, de tropical úmido para semi-árido, que teve início há, aproximadamente 10.000 anos, no fim do Pleistoceno, quando terminou a última época glacial, causou o desaparecimento dessas espécies. Elas tinham necessidade de comida farta, durante todo o ano e, com a diminuição do volume das chuvas, algumas deixaram a região, outras desapareceram da face da terra.
Na planície, no meio da pradaria, dominavam cinco grupos de grandes mamíferos herbívoros, vivendo em manadas:
• Palaeolama (prima fóssil da lhama)
• Hippidion (primo fóssil do cavalo)
• Catonyx (preguiça gigante terrestre, de tamanho médio)
• Eremotherium (preguiça gigante terrestre, de grande tamanho)
• Pampatherium (tatu gigante).
Entre eles, menos numerosos e vivendo solitários, ou em pequenas famílias, encontramos também os Toxodontes (grandes animais com cascos, do tamanho do rinoceronte e dos hipopótamos); à beira da água, os Glyptodontes (tipo de tatu gigante com carapaça não articulada, sem faixas).
Nas colinas, entre as árvores viviam os pecaris (porco do mato, caititu e queixada), os cervídeos Mazama (veado catingueiro e veado mateiro), o Blastocerus dicotomus, o veado galheiro, os Macrauchenia (quase tão grandes quanto uma girafa, com pescoço longo e uma tromba curta), os Mastodontes (parecendo elefantes mais baixos e mais alongados). Destes somente subsistem os pecaris e os veados.
Ao lado de todos esses hervíboros viviam os carnívoros que, deles se alimentavam : Smilodon (o tigre-de-dentes-de-sabre), os verdadeiros felinos como a onça, o puma, o jaguarundi, a onça pintada, a onça vermelha, o gato vermelho, o gato verdadeiro; os ursos, as raposas e os lobos. Somente o Smilodon desapareceu de toda a terra, faz, aproximadamente 10.000 anos; os outros felinos ainda sobrevivem. Smilodon pertence à uma linha particular da família dos felinos (Leão, Tigre, Onça, Puma, Pantera, Gato). A espécie sul-americana era Smilodon populator. Vários restos foram achados na região do Parque Nacional, sobretudo na Toca de Cima dos Pilão, que parece lhe ter servido como ninho, para onde, ele levou as carcaças dos Catonyx e dos pecaris que matou.
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| Eremotherium - mão. |
Palaeolama
É uma parente, fóssil, das lhamas atuais: tem o mesmo aspecto, mas é maior e mais pesada (300 a 400 kg), com o focinho alongado. Contrariamente às lhamas atuais, não estava adaptada à vida na montanha. Este herbívoro ocupava, no Brasil, o lugar que ocupam os grandes antílopes na África. Conhecido, desde faz cerca de um milhão de anos, desapareceu entre 8 a 10.000 anos atrás.
Pertence à familia dos Camelídeos (camelos, lhamas); existem várias espécies de Palaeolama no Quaternário da América do Sul, das quais, duas na região da Serra da Capivara, Palaeolama major e Palaeolama niedae, que é maior. Esta última representa 16% da megafauna da Toca da Barra do Antonião e 33% da Toca do Garrincho.
Hippidion
Parece com um cavalo selvagem, do qual é um parente bastante afastado; tem o mesmo tamanho (400 a 500 kg) e as mesmas patas, mas seus dentes são diferentes, de um tipo muito mais primitivo. Este herbívoro corredor ocupava, no Brasil, o lugar que ocupam as zebras na África. Conhecido desde há mais de 3 milhões de anos, desapareceu entre 8 a 10.000 anos.
Pertence à família dos Equídeos (cavalos, asnos, zebras); existiam várias espécies de Hippidion no Quaternário de América do Sul, das quais duas na região do Parque Nacional, Hippidion bonaerense, a mais abundante e um verdadeiro cavalo, mais raro, de uma espécie também desaparecida, mas muito próxima do cavalo atual, Equus neogaeus. Os Equídeos representam aproximadamente 33% da megafauna da Toca do Garrincho e 10,7 % dos fósseis do Antonião..
Eremotherium
Este parente afastado das preguiças atuais, era um dos maiores mamíferos terrestres do Quaternário da América do Sul (mais de 5 toneladas). Mesmo munido de enormes garras, era um estrito herbívoro que, para alcançar as folhas das árvores altas, era capaz de levantar-se sobre as patas traseiras e manter-se em pé, com a ajuda da cauda, formando assim um tripé. O tipo de crescimento de seus dentes permitia-lhe consumir vegetais duros e abrasivos. Muito freqüente no Brasil intertropical, desde há, aproximadamente, 300.000 anos, desapareceu há 10.000 anos.
Eremotherium pertence à família dos Megaterídeos, exclusivamente americana e, atualmente, totalmente extinta. A espécie principal é Eremotherium rusconii, que representa 30 % da megafauna da Toca da Barra do Antonião
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| Smilodon - Tigre de dente de sabre. |
Catonyx
Trata-se de outra preguiça gigante terrestre, mas muito menor que o Eremotherium. Era mais baixa e menos comprida que um boi, tendo uma massa equivalente (500 a 700 kg). Tinha também poderosas garras e, sua pele espessa, era reforçada por pequenos ossos dérmicos. Este animal apareceu aproximadamente há 300.000 anos e desapareceu há 10.000 anos.
Catonyx pertence à família dos Mylodontídeos, ela também exclusivamente americana e, hoje, totalmente desaparecida. A espécie da Serra da Capivara é Catonyx cuvieri; ela aparece, frequentemente, associada a um outro animal, do mesmo tamanho, que pertence à mesma família: Scelidodon. Os dois representam, juntos, 3,5 % da megafauna da Toca do Garrincho. Um esqueleto quase completo de Catonyx foi descoberto na Toca da Barra do Antonião.
Pampatherium
É um tatu gigante, do tamanho de um asno (100 a 200 kg). Sua carapaça comportava três faixas de articulação. Contrariamente aos tatus atuais, é um herbívoro e não, em razão de seu tamanho, quase não cavavam a terra. É conhecido desde faz 700.000 anos e desapareceu há 10.000 anos. Pampatherium pertence à família dos Dasypodideos (tatus). A espécie encontrada nos sítios da região do Parque Nacional é Pampatherium humboldti. Compreende mais de 18% da megafauna da Toca do Garrincho.
Glyptodon e Panochtus
Eram falsos tatus, com carapaça óssea rígida, não articulada. Eram tão grandes quanto um Volkswagen “Fusca” e, podiam pesar mais de 700 kg. Alguns tinham uma bola espinhosa, na ponta da cauda, utilizada como uma massa para defender-se. As placas ósseas de suas carapaças eram muito espessas (3 cm) e, tinham motivos geométricos, que permitem identificá-los. Deslocavam-se lentamente e se alimentavam de plantas aquáticas. Perduraram até há 8.000 - 9.000 anos. Glyptodon e Panochtus pertencem à família dos Glyptodontídeos, exclusivamente americana e, totalmente, extinta. As espécies da Serra da Capivara, presentes em pequena quantidade em todos os sítios, são Glyptodon clavipes e Panochthus greslebini. Juntas, representam 5,5% da megafauna da Barra do Antonião.
Toxodon
Eram grandes herbívoros, de patas curtas e corpo em forma de barril, do tamanho dos rinocerontes ou hipopótamos, atuais, da África. Pesavam uma tonelada ou mais. Tinham dentes que apresentavam superfícies discontínuas de esmalte, dispostas em faixas. Desapareceram por volta de há 10.000 anos. São os últimos representantes da família dos Toxodontídeos, exclusivamente sul e centro-americanos. Toxodon não é muito freqüente: 5,5% e 3,5% ,respectivamente, da megafauna da Toca da Barra do Antonião e da Toca do Garrincho.
Macrauchenia
Com sua cabeça comprida e, uma tromba curta, suas patas com três dedos e seu longo pescoço de girafa, é o mais estranho animal com cascos do Quaternário sul-americano. Herbívoro, procurando vegetais moles, alcançava uma tonelada de massa. Desapareceu há cerca de 10.000 anos. Macrauchenia pertence à família dos Macrauchenídeos, exclusivamente sul-americana e extinta. A espécie encontrada na região do Parque Nacional é Macrauchenia patachonica. Soma quase 4% da megafauna da Toca da Barra do Antonião.
Mastodonte
Parecia um elefante, mais baixo e mais comprido, com as trombas pouco curvadas. Podia pesar cinco toneladas ou mais. Os mastodontes são exclusivamente sul-americanos, do Quaternário recente. Houve mastodontes no Velho Mundo, em períodos mais antigos. Nos sítios da Serra da Capivara, temos numerosos molares caracterizados pela forma alongada e adaptada à trituração dos alimentos.
Haplomastodon waringi, que pertence à família dos Gomphotherídeos, é o mastodonte típico do Brasil intertropical, da onde desapareceu por volta de 10.000 anos atrás. Sua presença no Nordeste sugere uma vegetação muito diferente da atual, muito mais luxuriosa.
Pecaris
As duas espécies atuais, Dicotyles tajacu (caititu) e Tayassu pecari (queixada) estão presentes nas jazidas quaternárias da área do Parque Nacional Serra da Capivara; são, particularmente abundantes na Toca de Cima dos Pilão, onde formam cerca de 40% da megafauna. Os pecaris pertencem à família dos Tayassuídeos, equivalente na América à dos Suídeos do Velho Mundo. Como esses últimos, são animais florestais, de regime omnívoro.
Cervídeos
As duas espécies atuais Mazama guazoubira (veado catingueiro) e Mazama americana (veado mateiro) existem nos sítios quaternários da região. Em 2006, foram descobertos, na Toca das Moendas, fósseis (dentes e ossos) do veado galheiro, Blastocerus dichotomus. Os veados pertencem à família dos Cervídeos, da qual, todos os membros vivem nos bosques e nas florestas e comem folhas e cascas de árvores jovens.
Smilodon
É o mais potente carnívoro quaternário da América do Sul, tinha o aspecto e o tamanho de um tigre grande, com o rabo muito curto e grandes caninos superiores, que saiam fora da mandíbula, quando ela estava fechada, dai vem o nome popular de “tigre-de-dentes-de-sabre”. Podia pesar mais de 300 kg. Era um predador, que atacava, preferencialmente, os herbívoros de pele grossa, cortando-lhes a garganta e abrindo-lhes o ventre.
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| Smilodon - dentes. |
Outros felinos
Várias espécies atuais da família dos Felídeos, tais como a Panthera onca (onça pintada), Felis concolor (onça vermelha), Felis yaguaroundi (gato vermelho), Felis pardalis (gato verdadeiro) já aparecem nos sítios quaternários da região.
Canídeos
As raposas atuais já existiam nas épocas pré-históricas, mas, encontramos também, um notável membro extinto, da mesma família dos canídeos: trata-se de Protocyon troglodytes, predador potente e muito ativo, que caçava provavelmente em grupo e era tão grande quanto um lobo europeu (60 kg ou mais).
Ursídeos
Um só representante da família dos Ursídeos, existe, atualmente, na América do Sul e, não é mais encontrado no Brasil. Mas duas outras espécies, agora extintas, são conhecidas, no estado fóssil, na área do Parque Nacional Serra da Capivara. O pequeno Arctodus brasiliensis, omnívoro como quase todos os ursos modernos, conhecido em Minas Gerais e na Bolívia, está representado na Toca de Cima dos Pilão por dois indivíduos. O grande Arctodus bonaerense, alto e de face curta, era um poderoso comedor de carne, conhecido atualmente só no Quaternário da Argentina: é testemunhado por alguns restos na Toca do Garrincho.
Os fósseis da área do Parque Nacional Serra da Capivara testemunham uma grande diversidade e, fornecem dados preciosos sobre a idade e o paleoambiente, no qual viviam junto aos mais antigos homens americanos, conhecidos atualmente. A natureza, assim como a abundância das formas extintas e sua riqueza em indivíduos, indica, evidentemente, uma idade pleistocênica superior (mais antiga que 10.000 anos). Esta fauna traduz uma paisagem mista de pradaria e de floresta clara, sob um clima tão quente quanto o atual, mas bem mais úmido. Os primeiros homens, que habitaram a região, viveram neste meio-ambiente, tentavam evitar as espécies perigosas e exploraram, muito provavelmente, outras, caçando-os ou utilizando os restos de animais mortos pelos grandes predadores, para sua alimentação ou para a obtenção de matérias primas (ossos, pele, chifres, etc).
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