Arte rupestre de la Valltorta (Espanha)*
Rafael Fernandez
Muito bem, depois desta amena conferência do professor Mauro Hernandes, toca-me falar de uma experiência muito direta num espaço extraordinário pela quantidade de figuras rupestres e por sua singularidade.
Antes vou falar, também, do processo pelo qual se pode incluir a arte rupestre do Arco Mediterrâneo na lista do Patrimônio Mundial. Uma boa parte dos problemas referidos pelo professor Mauro Hernandes, estão contidos de forma muito clara na sua experiente declaração e em numerosas propostas que foram feitas no ano de noventa e oito, há seis anos.
Falo também de uma oferta esquizofrênica. Em parte estou de acordo com o professor Mauro Hernandes, embora o veja desde outra perspectiva, posto que, trabalho na administração autônoma que a refaz e, nós para justificarmos o aparato administrativo, refizemos a partir de dentro.
Provavelmente, e, agora desenrolam os temas que podemos entender com posterioridade, provavelmente a única maneira eficaz de funcionar é existindo um diálogo fluído entre as administrações e os administrados. E que esse patrimônio, se é realmente um patrimônio coletivo, deve dedicar os recursos para o uso da coletividade.
A história da declaração da arte rupestre do Arco mediterrâneo como Patrimônio Mundial, na Península Ibérica, tem um mito. No ano 1994, quando solicitamos que La Valltorta passasse a fazer parte da lista do Patrimônio Mundial, alguns pretendentes falaram que não iam interferir porque era uma questão importante, mas de difícil financiamento.
Provavelmente desde os anos sessenta, em numerosos congressos arqueológicos nacionais, isto é, congresso de arte rupestre, entre as conclusões fazia-se referência da importância da arte levantina e a necessidade de dar essa consideração de Patrimônio da Humanidade.
Sem dúvida alguma, o mundo científico está consciente dos problemas de conservação tão terríveis e que boa parte das agressões eram antrópicas (como já mostrara o professor Mauro Hernandes), afortunadamente são desses anos, dos anos sessenta. Nem todos se reproduziram na atualidade. Algumas sim, porém não todas.
Portanto havia um terreno propício no mundo científico o qual reclamava à administração que a arte rupestre levantina tivera a máxima consideração patrimonial e em consonância tivera as máximas medidas de proteção. Em qualquer caso, isso também é importante.
No ano de 1975, a Comunidade Valenciana organizou em La Valltorta um Seminário Internacional sobre a conservação da arte rupestre, onde se convidou aos principais investigadores do momento. Nele se aborda o problema de conservação, de gestão e onde se insiste em que a arte rupestre levantina tinha que ser Patrimônio da Humanidade.
Havia já pretendentes na Europa no ano 1979, Valcamônica devia entrar e formar parte do Patrimônio da Humanidade. E, quero lembrar que, a Cueva de Altamira entrou também nos anos 84 a 85. Havia um terreno abonado para reclamar a importante amostra da arte rupestre pré-histórica que se conservou no Levante, fosse levada em consideração.
Era um problema complicado, era difícil, posto que se trata de uma arte dispersa num território muito extenso, como poderemos ver depois, um terreno tremendamente antropizado e com problemas muito específicos.
No ano 1994, propuseram que La Valltorta passasse a formar parte dessa lista. Já veio talvez a mesma perspectiva como é o caso da Serra da Capivara que se implanta aqui e é um território que contem uma determinada amostra de arte rupestre, deve passar a formar parte na lista do Patrimônio da Humanidade. Chama-se de território e de uma manifestação dentro desse território, portanto, temos que conhecer primeiro o limite espacial.
A iniciativa do ano 94 se viu apoiada em 1995, no congresso organizado nas Ilhas Canárias pelo professor Mauro Hernandes em colaboração com os museus canários, onde normalmente como em outras ocasiões, no final do congresso, por unanimidade, insistiu-se na necessidade de solicitar esta declaração.
No ano 1996, a proposta de La Valltorta foi formulada no conceito de Patrimônio Histórico Artístico e se propõe que La Valltorta e a arte rupestre do Arco mediterrâneo leve suas petições à UNESCO para que se declarem Patrimônio da Humanidade. A partir de 1996, criou-se uma equipe de trabalho integrada por um representante de cada comunidade autônoma. Somam-se seis e, finalmente, é apresentado em 1997 e nesse mesmo ano o Ministério da Cultura apresenta a solicitação à UNESCO.
No ano 1998 recebemos uma inspeção da UNESCO e um abalizador indaga que medidas estão tomando as administrações para fomentar a conservação da arte rupestre. Finalmente, ainda em 1998, era declarado Patrimônio da Humanidade a arte rupestre do Arco mediterrâneo.
A experiência acumulada entre as seis comunidades autônomas se apóia fundamentalmente em quatro aspectos. Em primeiro lugar consideramos que a arte rupestre do Arco mediterrâneo se localiza em paisagens culturais de extraordinário valor patrimonial, portanto se introduz a figura da paisagem cultural; em segundo lugar insiste-se no valor documental da arte levantina, a que já nos referimos anteriormente; em terceiro a sua vulnerabilidade que tem a necessidade de adotar medidas urgentes para paliar as graves deteriorações que existem. A administração também está consciente de qual é essa realidade e, finalmente, fala-se do contexto social que parte do princípio de que é necessária a implicação da sociedade que, em parte, lida no território onde se conserva a arte rupestre. Se Integra, também, na proposta, algumas das medidas que a União Européia estava introduzindo em sua políticas territoriais como era o apoio sustentável do projeto e a necessidade de que através do turismo cultural se fomentara esse apoio. Esses quatro pontos são a base da declaração.
Na barra inferior vocês podem ver um aspecto de La Valltorta. Um barranco sufocado por numerosos meandros e a direita uma das marcas mais clássicas de La Valltorta que é a “Cova dos Cavalos”.
Bem, finalmente o ano 1998, se declara a arte rupestre do Arco mediterrâneo, Patrimônio da Humanidade. Esta é uma nuvem de pontos dos conjuntos declarados. Trata-se de setecentos e cinqüenta e nove conjuntos distribuídos pelas seis comunidades. Estamos falando de Catalunha, Aragão, Castilla-La Mancha, Comunidade Valenciana, Múrcia e Andalucia. Setecentos e cinqüenta e nove conjuntos distribuídos em um território extenso com uma variada paisagem e, também, com uma diversidade social enorme.
Este gráfico mostra a freqüência dos conjuntos. Das seis comunidades, a imensa maioria dos conjuntos inventariados, está na Comunidade Valenciana. Fica uma distribuição desigual que criará problemas na hora de se estabilizar a cooperação entre as distintas comunidades que se implicavam no processo.
Na declaração aceita, há quatro tipos de arte rupestre: a arte paleolítica a arte levantina, a arte macroesquemática e a arte esquemática. No total estamos chegando a trinta mil anos de evolução na arte rupestre, numa diversidade enorme de situações e de problemas de conservação. Também vem o nível de acesso a estes lugares.
Teremos no diploma, neste certificado que significa ser Patrimônio da Humanidade, algumas repercussões a nível institucional. A conservação da arte rupestre do Arco mediterrâneo na Península Ibérica, foi um imperativo da UNESCO. A UNESCO entendeu que esta iniciativa não tinha viabilidade se não houvesse um órgão supra-comunitário que zelasse pelo cumprimento dos compromissos que havia se adquirido a respeito da conservação.
Em segundo lugar, insistiu-se em criar um centro de investigação da arte rupestre, apesar de que é exclusivo, no ano 1993, se estudava nas Universidades, mas não se dispunha de alguma maneira, de centros especializados nessa questão. Sobretudo, nisso se insistiu muito, no que se refere ao problema da conservação.
Em terceiro lugar, insistiu-se na necessidade de pôr na mesa a forma de conservação preventiva que se tinha realizado até 1998. Nisso estou de acordo com o professor Mauro Hernandes. Não se salientou absolutamente nada pela conservação preventiva desses lugares, exceto com algumas exceções. Insistiu-se realmente que deveria haver maior proteção física. Aqui podemos falar sobre a conveniência, sobre qual modelo de proteção física deve-se impulsionar, se é pertinente gradear os conjuntos. No nosso caso, se trata de um território profundamente antropizado, com uma alta densidade de população. Praticamente todos os conjuntos tinham tido acesso e nos vimos obrigados a colocar grades com maior ou menor fortuna. Finalmente propus que era necessário que nos conjuntos mais importantes da arte rupestre do Arco mediterrâneo se integrasse uma rede de Parques de maneira que a sensibilidade, a proximidade desse patrimônio à sociedade se conseguiria. Não teria tido sentido essa declaração se não fosse para aproximar esse patrimônio à sociedade.
Do ponto de vista social se propus o aumento da demanda pelo consumo deste patrimônio. Estamos num país, Espanha, na Comunidade Autônoma valenciana que vive praticamente do turismo. Na Comunidade Valenciana o setor mais rico e que ingressa a maior quantidade de dinheiro, é o turismo. O turismo de praia está se diversificando nos últimos anos a favor do turismo cultural e de um turismo rural no interior.
A declaração como Patrimônio da Humanidade significou uma demanda, em alguns casos, desmedida nos ajustamentos por fomentar este patrimônio. Tem um primeiro problema: nesses 759 sítios, não havia sempre, para todos, uma entidade responsável para suportar um projeto dessa importância. Em muitos casos alguns municípios entram, apenas, com um abrigo em que pode haver uma pequena cena, algumas figuras que, de modo algum, justifica numa primeira fase, um projeto turístico.
Propus então que se que articular uma rede de centros que considerasse a questão da arte rupestre. Logicamente as administrações viram que somos otimistas e plantaram um projeto muito ambicioso de centros em que se colocaria a questão desses patrimônios a cada comunidade autônoma. Propus uma sede de centros como os que estão aqui o Museu de La Valltorta, aqui está o Museu da História de Valencia, aqui estamos falando de um centro que tinha sido criado, nós estamos falando da Contestânia que é onde existe um centro dedicado à documentação da arte rupestre. Essa foi uma decisão da UNESCO de criar centros especializados na documentação, na questão dessa informação.
Logicamente também insistiu-se que nas medidas de proteção tinha que ter câmbio. Não podíamos seguir colocando grades obsoletas nos conjuntos. Teria que se optar por modelos mais abertos como estes de La Valltorta, aos que posteriormente me referirei.
E realmente insistiu-se nos graves problemas de conservação da arte rupestre na área livre a qual se referiu Mauro Hernandes. O problema é de ordem natural, é geológico, é biológico e em nosso caso, fundamentalmente, o problema é de ordem antrópica de má educação no seu patrimônio, de mau uso, de agressão vandálica, de todo tipo de patologias criadas pela má educação, pelo cinismo da sociedade em muitos casos.
Bem. E, finalmente, a rede de conjuntos de arte rupestre a que me referia, esse itinerário de conjuntos postos em valor com um critério comum, essa rede de parques arqueológicos que permitiria aos visitantes e aos usuários entender a complexidade e o valor cultural desse patrimônio que, para a qual havíamos pedido sua consideração como Patrimônio da Humanidade.
Tudo isto de alguma maneira, está numa fase incompleta. Não sou tão pessimista, como pôde parecer o professor Mauro Hernandes, pois teremos que decidir que a declaração é de 1998 e que, como primeira medida positiva, houve reação social para pedir às administrações uma maior consideração por esse patrimônio; em segundo lugar acho positivo também apostar na marcha de projetos de conservação preventiva importante em algumas comunidades autônomas entre elas está a Comunidade Valenciana; em terceiro lugar, algo que é fundamental é gerar um movimento de fundo constante sobre o valor, sobre o interesse desse patrimônio que, sem dúvida alguma, nos próximos anos dará para juntar algo de muito positivo.
Pensamos que estamos trabalhando num trabalho longo, que temos que fomentar um câmbio na sociedade que repercuta, de forma positiva, nesse patrimônio e também um câmbio entre as administrações.
Agora vou me referir ao projeto Museus Vinculados, museus de sítios que servem de centro de acolhida para os conjuntos visitáveis com o Museu de La Valltorta e experiências similares. Podemos falar de projetos similares o que em outra escala, em Aragão, um projeto muito importante no Rio Verde que está sendo uma realidade.
Bem, agora vamos nos concentrar, sobretudo, no Parque de La Valltorta. Vamos fazer um pouco de História porque como acabo de dizer, pensamos que a questão do patrimônio tem que se entender com uma pequena perspectiva histórica e, a arte rupestre não deve ser excluída nesta dimensão.
Em nossa comunidade a arte rupestre tem uma distribuição bastante generalizada. Atualmente temos um inventário que ronda uns trezentos e oitenta conjuntos distribuídos em oitenta e três municípios das três províncias e em quatro estilos, há os que dizemos preferidos. Existe uma concentração importante no norte da Comunidade Valenciana onde se localiza o conjunto mais conhecido – La Valltorta. Outra localização importantíssima é a Bacia do Jucar e, outra fundamental, é o núcleo da província de Alicante. E, nestas três zonas, como conseqüência da declaração como Patrimônio da Humanidade, o governo autônomo valenciano ao iniciar três projetos de parques culturais, quer a estratégia alterada para a questão da arte rupestre.
O primeiro parque cultural em que estamos trabalhando é o Parque Cultural de La Valltorta. La Valltorta é um clássico. Provavelmente todos os livros de história da arte pré-histórica, ao mencionar a Europa, quando falam de arte pré-histórica, falam de Altamira para se referir à arte paleolítica e de La Valltorta para falar da arte neolítica. Quer dizer, um lugar incorporado com pleno sentido à história da arte rupestre na questão do patrimônio. La Valltorta foi descoberta no ano 1917, nos meandros de um barranco com covas, que até então eram usadas por pastores para guardar rebanhos.
Os pastores que encerravam suas cabras nestes lugares não eram conscientes da existência das pinturas ou não prestavam a menor atenção porque um dos primeiros problemas de conservação que tinham nesses lugares eram as sujeiras que fizeram no passado. Os pastores acendiam fogo, os pastores encerravam os animais que defrontavam seus corpos contra as paredes. Isso significou um problema de deterioro importante em numerosos lugares. Na época da descoberta da La Valltorta a Península Ibérica tinha os principais investigadores da pré-história como Wernert e Obermaier que estavam escrevendo as primeiras páginas da História da Arte Rupestre na Europa. La Valltorta foi descoberta então, como um dos lugares com uma maior densidade de pinturas rupestres pré-históricas da arte levantina. Isto gera uma tremenda discussão entre os investigadores. Tudo isto está escrito e na primeira publicação do ano 1919 e a arte de La Valltorta serviu, de alguma maneira, como veículo para transmitir a sua importância patrimonial.
A resposta social ao descobrimento de La Valltorta foi francamente contraditória. Naquele momento teria uma população de mil e quinhentos habitantes que viviam da agricultura e do pastoreio. Era um povo rural, miserável, pobre, segundo escreveram os nossos historiadores e aquela gente morria de varíola. Todos os anos havia uma tremenda mortalidade por ser extremamente pobre e que se quer aparecia muito nos mapas.
Neste lugar, de repente, aparece uma arte rupestre de transcendência mundial e não é só isto que acusam os investigadores franceses, alemães e “senhoritos” da cidade, como diziam os habitantes da região.
A sociedade local não entende a importância desse patrimônio, podemos ver nessa imagem onde estão praticamente representadas todas as classes sociais do momento visitando as pinturas. Sacerdotes, crianças, ricos, pobres, trabalhadores, a sociedade participa de algo que não entende.
A conseqüência deste divórcio entre a sociedade e o patrimônio é que nos três anos posteriores ao seu descobrimento, foram destruídas cinqüenta por cento das pinturas que tinham foram documentadas por Hugo Obermaier. Foram destruídas em muitos casos, por incompreensão e, em outros, tentaram arrancá-las para vendê-las. Em qualquer caso, destroem porque não as valorizam e não entendem a sua importância. Esta situação se manteve até 1942. Pensamos que desde o ano 1917 e 1942, toda La Valltorta permanece absolutamente desprotegida. As histórias não são tão distintas no Brasil e na Espanha. Transcorrem quase trinta anos em que La Valltorta não tem vigilância.. Esse lugar acolhe numerosos visitantes que vão e, afinal não entendem porque aquele lugar é tão importante e nisto apagam as pinturas rupestres.
Em 1963 produziu-se o roubo de uma das figuras da Cova do Civil, como estamos vendo nessa imagem, e, por pressões do investigador Dom Batista Policarpo, que então já se dedicava ao estudo das pinturas rupestres que a administração nunca havia respeitado, ele conseguiu que, transcorridos quarenta anos, La Valltorta estaria entre os primeiros sítios onde se protegeram suas pinturas e, como não podia ser de outra maneira, aparecem todos os políticos para sair nas fotografias com o governador civil e autoridades municipais no ato da inauguração.
Passou o tempo, no ano 1983, assumimos as competências autônomas. Como dizia Mauro Hernandes nessa conferência, a democracia traz consigo a criação do estado das autonomias. Os valencianos começam a apostar pela proteção de seus valores patrimoniais. Entre eles está La Valltorta. Põe-se em marcha um projeto para esse assunto, para o teatro romano de Sagunto, e em La Valltorta se trabalha com um projeto de parque cultural.
O parque cultural do ano 1983, La Valltorta foi um projeto pioneiro e provavelmente formulado em uma época em que realmente a sociedade estava preparada para assumi-lo. Legalmente no ano 83, a segurança do parque cultural não tinha nenhuma referência e não existia nenhuma lei que falasse de parques culturais. Portanto, naquele momento, a segurança do parque cultural se deu num conserto em que se pretendeu questionar espaços como o de La Valltorta onde existe um patrimônio cultural riquíssimo.
O projeto aspirava a dar proteção jurídica a La Valltorta e como não havia leis no âmbito do patrimônio que permitiam proteger territórios tão extensos, recorreu-se à lei do espaço natural desprotegido. Eis que se dá a primeira contradição. Não estamos falando de proteger espécies botânicas ou animais e sim de proteger pinturas rupestres.
Esta iniciativa de declarar um espaço natural protegido gera uma reação contrária, absolutamente violenta por parte dos habitantes de La Valltorta e, dessa maneira, as agressões apenas se ampliam e algumas das prefeituras implicadas no projeto manifestam publicamente que não querem saber nada do Parque de La Valltorta.
Outras prefeituras e setores culturais de Castellón, pensaram que, talvez, apoiando um projeto desta dimensão, se poderia produzir uma maior afluência de público em La Valltorta e que esta maior afluência, em última instância, poderia significar uma maior destruição de seus conjuntos rupestres.
Em qualquer caso, a administração abarca o projeto de parque cultural pelo não-abandono à idéia de construir um museu em La Valltorta e adotar a esse território uma série de instalações, como um museu e um camping, melhorar os acessos e também proteger fisicamente os conjuntos de pinturas rupestres.
Bem, desde o ano oitenta e três até quando se terminou de construir o museu de La Valltorta, passaram-se dez anos para finalmente em 1994, pôde ser aberto o Museu de La Valltorta, a 500 metros do Vale de La Valltorta. Esse primeiro projeto foi construído como uma instalação que serviria para dissuadir os visitantes da visita ao sítios de La Valltorta. Porque se pretende dissuadir os visitantes? Porque as pinturas de La Valltorta estão em um estado de conservação lamentável.
Os guias que davam assistência em La Valltorta, até 1994, levavam os turistas aos abrigos com umas fotografias explicativas do que teoricamente tinham que ver porque as pinturas não estavam visíveis. Era um caso de fé visitar estes lugares para poder ver umas pinturas inexistentes.
O museu, nosso grande museu, dispõe de um espaço de exposição com algo em torno de setecentos metros quadrados, um espaço para projeções audiovisuais, uma sala de trabalho, um armazém, laboratório para estudos arqueológicos e toda uma série de instalações. Portanto não se criou unicamente como um centro de visitantes ou um museu de sítio senão que, desde o princípio, é um laboratório com uma história de investigação centrada fundamentalmente no patrimônio de La Valltorta.
Nesse mesmo ano, coincidindo com a criação do museu nós fizemos uma reorientação do projeto. Em primeiro lugar, pleiteou-se declarar La Valltorta como Patrimônio da Humanidade e nos envolvemos no que foi exposto anteriormente; em segundo lugar, pleiteamos redefinir o projeto de um parque cultural dez anos depois. Pensamos que na sociedade que vive em La Valltorta há um certo amadurecimento e que será capaz de valorizar esse projeto melhor; em terceiro lugar pleitea-se a necessidade de reativar a investigação da arte rupestre e seus autores.
O contexto social se consegue na declaração. Há um câmbio importante também na mentalidade da sociedade de La Valltorta. Nos anos oitenta havia que um modelo de implantação agropecuária agressiva e portanto, não adiantaria nada falar ou ir a falar nada aos habitantes desse território. Não queriam escutar falar da segurança e da proteção que poderia pôr uma limitação ao seu território. Estão, porém, cambiando. Estamos na época de 1994 em que a agricultura e a pecuária se mantêm com supervisões européias e, como se vê, tem que se optar pela melhoria desse território protegendo seu turismo cultural, o turismo rural. Portanto já se produziu um câmbio de mentalidade que vai nos ajudar para que essa redefinição do projeto seja assumida e seja vista pela sociedade de La Valltorta como um benefício.
Propôs-se que na lei do patrimônio cultural valenciano que foi promulgada em 1998 (porque até esse momento a segurança do parque cultural não tem uma referência legal) no mesmo ano em que foi declarado Patrimônio da Humanidade, que fosse incluída a segurança do parque cultural dentro da categoria de bens de interesse cultural que, como disse o professor Mauro Hernandes, é uma categoria de máxima proteção dentro da lei do patrimônio.
O conceito de parque cultural é um conceito de enorme ambigüidade. Pela primeira vez permite-nos falar de proteger extensos territórios dentro das perspectivas do patrimônio cultural e não das perspectivas do patrimônio do meio ambiental. Se tivermos que questionar territórios tão extensos desde a perspectiva ambientalista de La Valltorta que é uma paisagem cultural, uma paisagem profundamente antropizada, não caberia nessa fórmula. Portanto teria que criar uma “ferramenta” nova adaptada às paisagens mediterrâneas profundamente antropizadas que não quer dizer que não tenham também valores ambientais.
Dentro dessa perspectiva um parque cultural é um bem de interesse cultural que engloba diferentes aspectos. O fundamental do ambiente cultural segundo marca a lei, é que há de atender a um entorno da proteção. A lei não estabelece a que critério se deve ajustar, embora fique claro que não se pode modificar a paisagem e não se podem fazer grandes obras públicas. Tem que se zelar pelo mantimento das atividades que não prejudiquem o equilíbrio dos componentes dessa paisagem. Dessa maneira um parque cultural seria um rosário de bens de interesse cultural e seus respectivos entornos.
A segurança do parque cultural introduz o conceito de paisagem cultural e, portanto, além da arte rupestre, o resto dos elementos patrimoniais que ainda existem automaticamente passam a usar da mesma proteção. O ponto de partida que justifica as limitações territoriais dessa arte rupestre é a sua distribuição pelo território.
O Parque Cultural de La Valltorta estende-se por uma extensão de vinte e dois mil setecentos hectares de uma paisagem tipicamente mediterrânea, uma paisagem de enorme diversidade. São duas bacias hidrográficas com seus numerosos meandros. É uma paisagem de média montanha em que as cotas mais altas se encontram no interior, com altura de aproximadamente mil e trezentos metros sobre o nível do mar. A distância máxima entre dois pontos é de aproximadamente vinte e cinco quilômetros e em um pequeno espaço, podemos conhecer os distintos tipos de paisagens mediterrâneas.
Como dizia, um aspecto que é fundamental e que determina a criação do parque é a concentração de pinturas rupestres. Neste setor do parque correspondente a La Valltorta tem uma densidade de conjuntos. A maioria se localiza no curso do barranco e se tem localizado, também, conjuntos de pinturas rupestres nas serras periféricas.
Além das pinturas rupestres, existe um riquíssimo patrimônio arqueológico. Sem dúvida alguma, as pinturas apareceram porque havia uma intensa ocupação do território desde a época paleolítica. A seqüência de La Valltorta pode-se seguir perfeitamente nas escavações que estavam havendo nesses abrigos. Encontramos um nível com indústrias mesolíticas datadas aproximadamente de seis mil, seis mil e quinhentos antes de Cristo e na seqüência o neolítico antigo e neolítico médio documentados também em outros abrigos. O polimento fez-se mais intenso no neolítico dois, em torno do terceiro milênio antes de Cristo e boa parte das pinturas de La Valltorta corresponde a esta fase.
Podemos falar desse patrimônio arqueológico tanto como fonte de conhecimento, e também, como recurso para esse projeto no âmbito do turismo cultural. A história não para no neolítico, La Valltorta segue ocupada durante a Idade do Bronze. No total ainda há uma população inferior a cinco mil habitantes. É uma população tremendamente necessitada. Alguns de seus povos vivem praticamente de pensões, como é o caso de Tirig. Quer dizer em um ano normal pode haver vinte mortes e nenhum nascimento como ocorre em outros setores da geografia espanhola, há um sério problema de necessidade da população. E um território com uma escassa diversificação econômica e que até agora tem vivido da agricultura e da .pecuária mantidas pela União Européia e que a partir dos próximos anos, a partir de 2007, esta fórmula vai terminar, provavelmente de forma bastante drástica porque alguns países que entrarão na União Européia e os desequilíbrios regionais que terão que ser corrigidos de outra forma. Portanto, Espanha e em particular a Comunidade Valenciana, que hoje são países ricos no contexto europeu, não podem continuar sendo mantidos por meio dessas ajudas e terão que optar por novas fórmulas.
Essa escassa diversificação econômica está precisando ser vista de outra maneira pelos agentes sociais que já estão criando cooperativas de turismo rural. Um caso paradigmático de ajuda à população de La Valltorta, são as cooperativas de turismo rural que, nos últimos cinco anos, já reabilitaram vinte casas, como alojamentos de turismo rural. Criando também um serviço de guias para atender aos turistas e este é um serviço importante para a população e para o parque.
No discurso do parque a arte rupestre é o motivo fundamental. É o elemento-base que ordena tanto o limite do parque, como a estratégia global de proteção, embora existe um patrimônio igualmente interessante e que se converteu também em recurso. Esse patrimônio cultural convertido em recurso cultural, em recurso turístico é a arquitetura tradicional. As construções de pastores, construídas pela técnica da pedra em seco, são refúgios, a maior parte das casas tem uma antigüidade não superior a novecentos anos. Casas que foram moinhos e que foram habitadas como alojamento rural, , toda uma série de patrimônio que enriquece a arte rupestre e que nos permite, em primeiro lugar, reduzir a pressão sobre o sítio com arte rupestre, desde que todo visitante do museu não vá dirigido exclusivamente às pinturas rupestres sem que haja outro patrimônio próximo que seja igualmente visitável e que enriqueça a visita dentro de uma perspectiva histórica. O que queremos transmitir aos visitantes, é que este é um território que foi ocupado desde o mesolítico e o neolítico até o século dezenove, e a partir desse patrimônio podemos conhecer a história dessa gente.
Bem, e quanto à questão da arte rupestre, a proteção ou criação do parque cultural está posta em primeiro lugar; melhorando a proteção física. Atualmente somente se visitam cinqüenta e seis conjuntos inventariados. Somente visita-se, mediante a participação de um guia, quatro conjuntos. Há ainda a vigilância ativa. Existe aí a presença permanente de guias vigiando os conjuntos que não estão fechados. Existe um regime diário de visitas guiadas, quer dizer, um visitante sabe que qualquer dia das dez da manhã às doze e às cinco da tarde visita-se distintos conjuntos. E, em quarto lugar, o que me parece ser fundamental é que está sendo iniciado o projeto de conservação preventiva.
“Bom dia a todos, vamos retomar os trabalhos, com uma apresentação de Jean Felipe D’Lorma que é da cooperação francesa e ele vai falar sobre o Parque Regional do Pantanal, o novo espaço institucional para uma gestão participativa dos recursos naturais”.
“Bem, nós convidamos o D’Lorma para fazer essa palestra para vocês porque trata-se de um projeto de um convênio assinado entre a França e o IBAMA para então tentar mudar um pouco a maneira de funcionamento dos parques nacionais. Eles estão trabalhando no Pantanal, eu já tenho recebido notícias de várias pessoas, de brasileiros que foram visitar, dizendo que essa ação já está tendo excelentes resultados porque eles estão trabalhando do sentido de assegurar a preservação do meio ambiente e vocês devem saber que pra nós é extremamente importante, que por exemplo, na Serra da Capivara alguns dos nossos problemas mais graves vêm justamente do desaparecimento de certos animais, a quebra da cadeia alimentar, animais que não têm mais predadores e que aumentar sem parar como os cupins, e certas vespas que cobrem as pinturas.
Então, esse exemplo, eu acho que é um exemplo que vai muito bem para aqueles que estão trabalhando na conservação do patrimônio cultural”.
“Obrigado”.
* O texto da conferência não foi corrigido pelo autor.