MILA SIMÕES ABREU
Muito boa tarde! Eu queria começar por agradecer como é óbvio a umas pessoas que eu admiro muito que é Niède Guidon – a presidente da FUMDHAM; a presidente da ABAR – Anne-Maria Pessis; a Gabriela – a presidente da Fundação SERIDÓ. Mas também queria agradecer as outras pessoas que colaboram tanto com o Parque como com a FUMDHAM. Por tudo aquilo que fazem por nós, que vimos de fora que muitas vezes damos muito trabalho. E também aos jovens que acompanham o evento, pois sem eles, muitas vezes silenciosamente, as coisas não se dariam da mesma forma.
A comunicação que ia apresentar devo dizer, que ontem à noite mudei um pouco, porque ao longo desses dias eu tive a ocasião de falar com muitas pessoas e achei que poderia introduzir alguns elementos que estão relacionados exatamente com estas conversas que nós tivemos nestes últimos dias.
O que vos vou falar é sobre dois sítios da arte rupestre ao ar livre que são, exatamente como acontece com a Serra da Capivara, parte da lista do Patrimônio Mundial .
Vocês todos sabem que desde que em 1979 foi declarado o 1º monumento da arte rupestre. Aliás, foram dois para dizer a verdade, foi o Valcamónica na Itália e a Vallée de la Vezère na França; temos hoje numerosos sítios que são classificados. A maior parte deles reflete a tendência eurocentrista; e que, portanto, classifica as coisas que estão na Europa deixando muitas vezes outros paises, que têm sítios muito mais importantes não serem mesmo classificados.
Tanto o Valcamónica como o Vale do Côa fazem, portanto parte dessa lista que, em 1979, tinha só dois sítios e que, em 2003, tinha 15. Portanto, sítios que faziam parte da lista do Patrimônio Mundial, a qual vai ter agora uma novidade que acabei de receber na semana passada: Vai ter agora um novo sítio da arte rupestre no Azerbaijão.
O Valcamónica e o Vale do Côa têm muitas coisas em semelhante e são um pouco diferentes da Serra da Capivara, porque são sítios com gravuras e não pinturas. No caso do Valcamónica (pelo menos essa presença é muito reduzida) como vocês vêem ali; foi classificado em1979 e é extraordinário que foi o primeiro monumento italiano a ser classificado. Foi a primeira zona ao ar livre que foi classificada. E atualmente está em risco de fazer parte de uma outra lista que é o Patrimônio Mundial em Perigo, que não tem tanto prestígio.
O Vale do Côa foi classificado em 1998, foi o processo de classificação mais rápido da história da UNESCO. Porque as gravuras foram descobertas em 1994, o que quer dizer que 4 anos depois se deu essa classificação. Foi o primeiro sítio arqueológico a ser classificado em Portugal. Portugal tem neste momento 15 sítios no Patrimônio Mundial, mas temos um único arqueológico. E também foi a zona de arte rupestre em sítio paleolítico que foi classificada e eu digo isso um pouco como uma provocação aqui aos nossos amigos espanhóis, porque espero que em breve outros sítios espanhóis, como por exemplo, Sega Verde e Domingos Garcia possam fazer parte do Patrimônio Mundial porque merecem com certeza.
O Valcamónica, faço aqui uma pequena introdução provavelmente muitos de vocês já ouviram falar nisso, mas eu preferi enquadrar geograficamente onde está o Valcamónica. Está ali assinalado, no meio dos Alpes Italianos. Não é indiferente essa localização, porque, primeiro, nós temos uma unidade cronológica estilística em alguns casos da arte rupestre de todo o Arco Alpino. Eu não vou falar nisso porque o tema da minha comunicação não é exatamente falar sobre cronologia, mais sobre o que se fez, nos últimos anos, em Valcamónica. De qualquer maneira, eu queria vos mostrar o ambiente. Estamos nos Alpes, com montanhas muito elevadas, como o maciço da Concarena, que é aquela que vocês vêem ali, tem 2.600m (mais ou menos); mas a maior parte das gravuras na realidade fica entre os 400 e 1.000m de altitude.
Isso está relacionado um pouco com o suporte, com a própria rocha. O que vocês vêem ali a parte central da Valcamónica que é o Capo di Ponte onde se encontra a maior concentração da arte rupestre. No entanto existe na realidade, arte rupestre no Valcamónica ao longo de 70 km. Desde a parte mais norte nas Montanhas dos Alpes até ao lado d’Iseo..
Valcamónica é um vale glacial criado pelo gelo, durante milhares de anos e que fez este buraco. E é, exatamente neste local que nós temos esta grande concentração da arte rupestre.
As primeiras descobertas da Valcamónica, como acontece muitas vezes, não é muito clara, é óbvio que a população local conhecia. Até porque muitas das rochas estão mesmo no meio de aldeia, portanto, era impossível que as pessoas não as conhecessem, mas oficialmente a descoberta é atribuído ao geógrafo Gualtiero Laeng, em 1909. Vamos tentar caminhar, depois de100 anos da descoberta da Valcamónica.
A característica fundamental da Valcamónica contradiz a figura que vos acabei de mostrar. São rochas na verdade, que são gravadas na vertical, quando 95% das figuras rupestres da Valcamónica é, na realidade, gravada na horizontal, em rochas horizontais. É que elas são realmente um monumento muito especial, muito particular do calcolítico.
A rocha é o suporte como eu vos dizia, fundamental. Porque foi ela, sua enorme beleza, que provavelmente atraiu o homem pré-histórico. Porque parece quase água transformada em pedra, faz com que seja extremamente fácil gravar num certo sentido e que o resultado seja também esteticamente muito interessante, e tenho a impressão que isso teve, certa importância para o homem pré-histórico.
A maior parte, portanto, das figuras que nós temos no Valcamónica, a maior parte são gravuras. Atualmente pensasse que existem cerca de 300mil figuras. Eu digo que pensasse porque há uma grande discussão do que é uma figura e não vale a pena aqui discutir esse assunto. Mas, por exemplo, essa discussão tem a ver com coisas como se o homem a cavalo são duas figuras ou só é uma? E, portanto, essa discussão faz com que não seja muito preciso o número de figuras existentes na Valcamónica, mas estamos na ordem das centenas de milhares. E existem algumas pinturas.
É preciso dizer que a maior parte das gravuras provavelmente eram pintadas, e nós sabemos disso porque encontramos nas bases, em volta das rochas, o material que foi utilizado para as pintar. É claro que a pintura não sobreviveu. E, portanto, (não temos a facilidade da Serra da Capivara) ficamos só com as gravuras, as pinturas foram-se.
Existem duas técnicas fundamentais com que foram feitas as gravuras. Elas foram feitas com a técnica que chamamos de “picotado”, portanto com o instrumento pontiagudo fazendo percussões na rocha. Algumas vezes as pessoas pensam que elas são em relevo. Não, elas são simplesmente o resultado da técnica que é usada. Elas são profundas e não salientes. E muitas vezes é usada outra técnica chamada grafiti filiforme, quando a gravura é feita por traços riscados em vez de picotado.
As duas técnicas são, às vezes, usadas em simultâneo.
Como vocês vêem aqui, em diversos modos, uma técnica pode servir, por exemplo, de esboço, para se riscar primeiro. E depois, com um picotado, podem completar partes das figuras; como vocês vêem ali nos altos, nos capacetes, é a parte que são as plumas, digamos esses capacetes, está representada com essa técnica ou muitas vezes aparecem como outras figuras, que estão próximas das figuras picotadas e que parecem fazer parte da mesma composição, embora tenham uma técnica completamente diferente.
Temos 50 anos de investigação sistemática, mais ou menos, no Valcamónica. Só a partir realmente da 2ª Guerra Mundial é que se começou esse trabalho, entre as gerações que trabalharam na arte rupestre paleolítico na Europa; existe aquilo a chamada geração do Valcamónica, ou seja, quase todos ou muitos investigadores da arte rupestre passaram pela escola do Valcamónica. E, portanto, trabalharam lá. E os 50 anos de investigação sistemática deram seus frutos.
E, portanto, temos hoje uma série enorme de figuras sendo localizadas, ao longo desse vale, que foram sendo descobertas e sendo também estudadas. Este mapa aqui que eu poderia falar muito sobre ele. E , também, em relação ao que temos falado nos últimos dias porque a complexidade da gestão do Valcamónica é imensa. Impossível, é dificil ter uma gestão pois é dividido em dois Parque Nacionais e há um Parque Regional que tem um estatuto completamente diferente dos Parques Municipais. Imagine o que é, portanto coordenar toda essa gente. É um conflito quase permanente e as coisas, realmente, em partes não funcionam por que não existe um único grande Parque da Valcamónica, mas existem esses pequenos parques todos com funcionamento diferentes. Que muitas vezes em vez de estarem interligados, não estão, fazem competição entre si, em relação a turistas. É, portanto, uma péssima gestão.
Existe também um outro grupo de monumentos, que são as estátuas telas, que são pequenas rochas que foram decoradas e que são móveis, portanto uma parte delas foi retirada do local e encontram-se só em Museus. E, portanto, não estão no âmbito desta gestão que eu vos apresento aqui.
O esforço que foi feito nestes 50 anos, eu preciso dizer que realmente a Valcamónica nesse sentido foi uma escola, principalmente no que se diz a respeito às gravuras rupestres. Foi e eu vou fazer um levantamento total de tudo, absolutamente, mesmo aquilo que a gente não sabe o que é.
Portanto, hoje, cada rocha é desenhada, é arte-calcada, é levantada totalmente. Não são só as figuras mais bonitas ou as cenas mais interessantes, ou aquelas que as pessoas compreendem. Portanto, muitas vezes as rochas são muito complexas e muito desordenadas como vocês, por exemplo, vêem aqui.
Provavelmente nos livros são mostradas mostrar as figuras mais usadas e que são identificáveis. Mas queria que vocês me compreendessem que não é assim. Na verdade as figuras são todas desordenadas e aparecem dessa maneira na rocha.
Aqui são as cenas que normalmente nós apresentamos e que aparecem nos livros. A figura de homem típica da Valcamónica é o guerreiro. E vocês aqui têm uma grande seleção desses guerreiros. Muitas vezes são mais de estáticos, outras vezes são cheios de movimentos; existe toda uma grande variedade, por exemplo, de objetos que trazem nas mãos. Nesse sentido é muito cinética como na Serra da Capivara, é muito dinâmica e cheia de história.
Se vocês olharem ali para a parte da folha de cima, por exemplo, vêem esses dois que parecem que estão numa luta de boxe, não é. Um tanto diferente em relação à outros tipos de arte que temos na Europa.
Mas não é só isso, a arte rupestre na Valcamónica tem uma variedade de cenas, exatamente como acontece no Vale do Côa. Embora muitas delas tenham tido ao longo dos anos uma interpretação que hoje é discutida. Por exemplo, essa cena aqui em cima é interpretada muitas vezes como uma cena de caça, e nós hoje sabemos que muitas das cenas de caça na verdade não são caças verdadeiras, são mais cenas de iniciação ritual. E não têm muito a ver com o ato de caçar para comer.
Há cenas muito complexas, por exemplo, os duelos, os chamados: duelos. Que não são verdadeiras guerras, porque ninguém vai pra guerra atado ao pé um do outro para combater. Portanto, isso quer dizer que ali qualquer coisa que não está relacionada com a verdadeira guerra, mas talvez uma guerra simulada, um torneio, qualquer coisa desse tipo.
Têm muitos símbolos, esse é o mais famoso relacionado ao labirinto. E tem também uma representação para a qual eu gostaria de chamar atenção, porque aparece pela primeira vez com muita evidência, realmente as classes sociais. Se você olhar para este cavalo, vêem um senhor que está lá em cima e outro que está a pegar no cavalo. Portanto aqui já dá para saber que a Europa já estava a entrar pelo mau caminho.
Existe também uma enorme quantidade de cenas que chamamos mitológicas. Porque, aparentemente, não correspondem à realidade, não é aquilo que acontece todos os dias, como esta por exemplo: Vêem um homem e seus braços se transformam em serpente; ou este que está a cavalgar um cervo, também não deveria ser uma coisa muito habitual; ou mesmo símbolos mais complexos, como uma divindade, o Deus Camuno, essa grande figura que é conhecida do ponto de vista arqueológico; ou até, como acontece na Capivara, cenas sexuais. Também temos uma grande variedade.
Do ponto de vista da cronologia existe uma grande variedade e realmente as figuras mais antigas são pertencentes ao Paleolítico Final ou talvez Arque paleolítico, essas grandes figuras de veados. Temos uma época Neolítica que não é muito segura, embora durante muito tempo tenha sido publicada como Neolítico. Nós hoje pensamos na verdade que o Neolítico no Valcamónica não é realmente Neolítico. E, realmente, a grande exuberância da arte rupestre da Valcamónica começa a partir do Calcolítico, ou seja, há 5.000 anos, com as chamadas composições monumentais.
O Calcolítico é uma época sobre a qual que eu queria falar durante horas. Porque é muito interessante, é muito ordenado. Porque o território começa a ser muito importante e isso se reflete na rocha, onde vocês vêem o solo, as linhas que são a água, os punhais, as armas, o homem que está a lavrar o campo. É completamente diferente, é uma época que depois não vai se repetir. Nesta ordem desaparece ou então entra-se no caos da competição.
Nesta época temos, felizmente, do ponto de vista arqueológico, a presença desses punhais que são um tipo de material perfeito, permite datar. Eu disse a pouco que não vou falar sobre datação e, portanto, não posso fazê-lo, não temos muito tempo para fazer isso. Mas queria vos dizer que uma das coisas mais importantes da Valcamónica é que felizmente nós temos os objetos que permitem muitas vezes ter datações bastante claras. Não são datações diretas, mas são datações relativas, consistentes e importantes.
Temos representações femininas, vejam como exemplo esta aqui, ou esta que é um pouco mais difícil de ser entendida; mas que é um tear na vertical. Portanto, vemos que a partir disso, exatamente com acontece aqui na Capivara, nós podemos construir a vida das pessoas, nas suas facetas diferentes.
Chegasse ao ponto de ter coisas como estas, como o mapa de Bedolina, que é uma verdadeira cidade. Pelo menos num espaço territorial vocês vêem, tem os campos cultivados. Temos caminhos para ver, tem o riozinho, tem as pessoas, tem os animais e chega até a ter as casas. As casas com pessoas lá dentro, até a olhar. Portanto, é uma arte muito dinâmica cheia de história, mesmo mas nós não conseguimos compreender a maior parte dessas histórias. É por isso que talvez seja uma arte que muitas vezes é atrativa, as pessoas gostam de ir lá ver, porque conseguem reconhecer o que estão a ver.
Do ponto de vista cronológico, portanto em resumo muito breve nós temos a época do Proto-Camuno a mais antiga do Paleolítico até o Pós-Camuno. Os Camunos são os habitantes do Valcamónica, nós damos-lhes esse nome porque na verdade é documento histórico. Os romanos escrevem que ai vivia e que conquistaram a região no ano XVI a.C. e, portanto esse é o termo que entre vírgulas nós utilizamos para fazer referências às populações pré-históricas. É claro que na época Paleolítica, provavelmente, eles não se chamavam de Camunos, mas esse é um termo que nós utilizamos.
Mas o que importa realmente é aquilo que eu queria vos falar era sobre a gestão desse imenso patrimônio. Já vos disse que muito complexo, que é dividido, portanto, é fragmentado entre muitas autoridades, muitos parques, muitos municípios, etc...etc. O patrimônio mundial na verdade, embora a gente fale sempre da Valcamónica como patrimônio mundial (área de proteção do patrimônio mundial) é exclusivamente o Parque Nacional de Naquane que é este que eu vou mostrar aqui. É também o parque da arte rupestre ao ar livre mais antigo do mundo, não sei se há um mais antigo, mas sei que foi constituído em1955. E, portanto, vai fazer agora 50 anos, é um dos mais antigos da arte rupestre ao ar livre, não sei se há outro. Mas com certeza não há grutas que foram classificadas e são mais antigas.
Esta é a entrada do Parque de Naquane, o que vocês vêem aqui são algumas das figuras presentes, o painel de ingressos e a preparação que foi feita no parque para os visitantes.
O grande problema que nós temos no Valcamónica é aquilo que eu vos disse das gravuras estarem na horizontal. Portanto é muito complicado mostrá-las ao público. Porque elas não aparecem na vertical e as pessoas não podem estar à frente delas, elas tem de olhar para baixo para os pés e em muitos casos tem de andar sobre as rochas, tem de caminhar para as ver. Portanto, isso foi um problema, é um problema muito grande. E durante muito tempo houve um grande debate se devia-se por as passarelas ou não, e onde é que elas deveriam ser postas. Em alguns casos como aqui na Grande Rocha de Naquane, que é uma rocha que tem mais de mil gravuras, em cerca de 40 metros de comprimento, acabou-se por optar por isso. Porque o risco era demasiado, as pessoas queriam ir lá em cima, queriam ir ver. E, portanto, optou-se por fazer isso. E vocês têm aqui uma visão desta parte da grande rocha de Naquane. A zona do parque tem apenas 10 guardas, mas é completamente vedada, portanto há uma certa proteção; o que é absolutamente extraordinário é que todos os outros 70 km da Valcamónica não são vedados, não tem guardas, não tem nada e tem exatamente a mesma coisa. O problema de que vocês falam aqui, no Valcamónica é exatamente a mesma coisa.
Como é que uma coisa a dois metros da porta já não é protegida, já não tem guarda, já não se sabe o que lhe pode acontecer? Pronto, portanto estamos exatamente ao mesmo nível.
Vi o trabalho que é feito, e realmente Naquane é um parque de crianças num certo sentido. Os grandes visitadores, os visitantes de Naquane são escolas. Eu preciso dizer que o governo italiano nisso e a escola italiana é fantástica, não há praticamente nenhuma criança que atravessa a escola sem ir a Naquane uma vez; principalmente aqueles do norte da Itália, das cidades de Milão e Turim. E, portanto, o grande público é um público de crianças. Elas são acompanhadas por guias, embora se possa fazer visita sem guia. Mas, é claro que os professores preferem ter o acompanhamento do guia e este no momento da entrada faz um pequeno discurso: Vamos entrar neste sítio, é preciso não andar com pé no chão.
É discutível e eu, por exemplo, embora tenha participado na realização desses painéis, mas praticamente acho que são horríveis! Estão localizados ao pé da rocha, foram escolhidos temas em que se faz a representação da figura mais importante. E se faz um pequeno texto, em que se explica o seu significado, são bilíngües: são em italiano e em inglês; o suporte, a maneira como são feitos eu não gosto muito; são resistentes estão ai há cerca de quase quinze anos.
Quais são problemas que nós temos e que são comuns a quase todo mundo? O principal, por mais incrível que pareça, está relacionado à água, não na sua forma líquida e sim na sua forma sólida, porque a Valcamónica é nos Alpes. Então um dos nossos grandes problemas é a infiltração da água que se transforma durante a noite em gelo que, portanto aumenta de volume e parte a rocha. Portanto, muitas das rochas têm essas fraturas que são provocadas exatamente por essa ação. É complicado, por exemplo, solucionar o problema, porque em qualquer sítio que tu ponhas ela acaba por acontecer isso, acaba por congelar. É melhor que não houvesse essa água, pronto! Isso não é fácil, principalmente como eu vos disse as figuras são horizontais.
Outro problema comum são os liquens e os musgos. Vêem aqui uma rocha completamente gravada e completamente irreconhecível, não se consegue ver as gravuras porque está completamente coberta dessa película preta. E é preciso dizer que no Valcamónica, durante esses últimos anos, muitas das rochas não as limpamos, deixamos assim. Escolhemos algumas rochas que limpamos e deixamos muitas delas nesse estado. Porque realmente nós não nos sentimos com capacidade suficiente ainda de atuar de forma que se tenha certeza que nosso trabalho atual não seja pior. E, portanto vocês vêem exemplos aqui do que acontece, quando muitas das figuras são danificadas, por esse motivo.
Estranhamente uma das coisas piores para a arte rupestre do Valcamónica é o homem; eu digo estranhamente, mas parece que é um problema comum. E esse homem muitas vezes aparece na forma mais extraordinária, é a forma do técnico arqueólogo ou do arquiteto. Que muitas vezes faz coisas como essas: essa é a grande rocha de Naquane, com a passarela, exatamente por causa disso, porque é obvio que as pessoas não podiam continuar a andar lá em cima. Mas é absolutamente excessivo fazer coisas como essas, não era talvez necessário. Porque nós não estamos em sítios como a Valtorta, estamos em sítios em que as rochas são relativamente inclinadas, e que bastava a pessoa estar recuada. E para poder conseguir vê-las não era preciso essa introdução para ir lá para cima. Chegou-se ao ponto de muitas vezes passarelas serem feitas de metal.
Esta é a primeira rocha pela qual tenho um grande amor, que é a primeira rocha que eu descobri. E ao ver isso eu fico triste, pois fizeram uma série de buracos. Estão a ver que isso era desnecessário; porque a terra está aqui e bastava recuar um bocadinho, 10 centímetros dentro. E já não precisavas fazer isso, já não precisava fazer os buracos na rocha. Portanto existem esses problemas.
A fixação, por exemplo, muitas vezes é pouco cuidadosa, não é acompanhada por técnicos. Não sei se conseguem ver, mas está toda riscada, porque ao porem essas partes eles não tiveram cuidado e fizeram, portanto, isso.
Esses descuidos, digamos que nos último anos em Valcamónica tem sido multiplicados em relação ao seu ambiente e então o problema torna-se muito grave. Portanto, com a intervenção de obras absolutamente monstruosas como estas; esta ponte que está aqui, tudo isto é gravado. Esta ponte que não está concluída e não vai ser concluída, porque descobriram que passa em cima de Naquane que é Patrimônio Mundial. E, portanto não pode ser feita. E construíram e vai ficar ali sem saída, é uma coisa absolutamente absurda.
E outros dos grandes horrores do Valcamónica é o fato de que a Valcamónica produz muita energia elétrica e ela tem que ser transportada, e são os postes de eletricidade. Esses postes de eletricidade muitas vezes são colocados em cima das próprias rochas com gravuras. O mapa de Bedolina está aqui em baixo, portanto, puseram um poste de eletricidade exatamente em cima da rocha. Portanto, isso se resolvia simplesmente com melhor articulação entre as pessoas. Não é um problema gravíssimo, é simplesmente um problema de articulação.
Existe outro aspecto que não sei se é comum em relação a vocês, que para mim pelo menos é extraordinário, que é a falta de interesse da população em relação a isto. E isto está relacionado principalmente, por exemplo, com que nem chegam a ter orgulho que aquilo seja Patrimônio Mundial. E essa falta do orgulho do fato do Valcamónica ser classificada existe no próprio estado italiano.
Esta é a entrada do Parque Naquane vocês vêem em italiano, tem o escudo da República Italiana e não tem símbolo do Patrimônio Mundial, o que aliás era obrigatório até. Onde é que aparece o símbolo do Patrimônio Mundial? No início da cidade, da aldeiazinha de Capo de Ponta, que não é Patrimônio Mundial. Patrimônio Mundial é aqui em cima, na Montanha.
Portanto, disso vê-se como é que muitas vezes o fato de ser classificada uma zona não é explicado às populações. Se elas não a compreendem na verdade, passam ao largo, não têm o mínimo interesse. O que isso conduziu? Isso conduziu a um certo desinteresse nos últimos anos no Valcamónica.
Aquele que é o primeiro sítio da arte rupestre, que foi classificado, na verdade, provavelmente é o que está em piores condições. Imaginem! Não tem ainda um museu, portanto, ao fim desses anos, não tem nenhuma estrutura que apresente às pessoas, na forma de centro didático, ou seja, lá o que for. Não existe, as pessoas vão, vêem as rochas, mas não lhes explicam nada. Se não tem um guia realmente não conseguem compreender. A maior parte dos sítios continua sem qualquer tipo de vigilância, nada, zero, absolutamente zero. E, portanto, isso faz com que haja um crescente vandalismo, e um estado que vai em breve colocar o Valcamónica na lista do Patrimônio Mundial em Perigo.
A maior parte das rochas estão em propriedades privadas, o que complica ainda mais a questão. E principalmente o Valcamónica que teve 150 mil visitantes, tem hoje 60 mil. O que isso quer dizer? Uma gestão feita sem consultar as populações, sem trabalhar com as populações. Aquilo que era um sítio que tem todas as possibilidades de ser um grande sítio onde 150 mil visitantes não são demasiados; porque é muita rocha: 2.500 rochas e há muitas zonas para serem visitadas facilmente. Portanto, pode absorver esse número, não é um número que põe em perigo, de maneira alguma, as gravuras. Mas hoje infelismente isso não acontece, portanto, aquele que é o primeiro monumento da arte rupestre ao ar livre classificado pela UNESCO está provavelmente numa das piores condições entre todos os sítios da arte rupestre.
E eu agora resolvi mudar, vou falar um pouquinho sobre o Vale do Côa. Vou tentar ser o mais veloz possível, na apresentação do contexto do Vale do Côa na arte rupestre de Portugal, que efetivamente não é muito conhecida, conhecem o Vale do Côa, mas não muito do que ai acontece.
Nós temos praticamente desde o século XVIII documentação da arte rupestre em Portugal e talvez uma das documentações mais antigas que se conhece, e seguramente uma das mais antigas publicadas, por termos uma publicação feita em 1734 em que aparece essa gravura com uns anjinhos a reproduzir exatamente um sítio, um abrigo pintado, que é o Caixão da Lapa.
Portanto, há uma tradição realmente longa disso tudo da arte rupestre ao longo desses anos. Que se traduz numa série da distribuição daquilo que é hoje a Arte Rupestre em Portugal. Em 1953, quando foi feito o primeiro inventário da arte rupestre, haviam 109 localidades com arte rupestre. Elas são todas no norte, na zona onde eu moro; a maior parte delas eram cruzes e covinhas (que são estes buraquinhos feitos na rocha). É por isso que, em 1991, nós decidimos criar um inventário total da arte rupestre. Nessa altura pensava que era uma coisa que eu ia concluir em dois anos ou três, que ia ser muito simples, que não ia ter trabalho nenhum, e não passamos desta zona praticamente. Portanto, tem muito ainda a ver.
Entretanto, aconteceu é que em 1995 nós já tínhamos 300 localidades, hoje temos cerca de 600 estações de arte rupestre. A maior parte da arte rupestre localiza-se nessas áreas. No norte em Trás-os-Montes (que é onde eu moro); aqui na zona atrás do Douro (que inclui o Côa); na parte central, embora a maior parte desta arte seja megalitismo e no Vale do Tejo. Principalmente nos últimos anos tem-se descoberto a arte rupestre nesta zona mais para o sul.
O motivo desta distribuição também é fácil de explicar por existirem mais rochas no norte do que no sul. E a arte rupestre precisa desse suporte.
Os primeiros sítios que foram estudados em Portugal foram os abrigos pintados. Este é Paulo Pinto, um dos primeiros abrigos, estudado em 1930. Eu coloquei um mapa para vocês terem uma idéia, a maior parte deles encontram-se na zona transmontana, embora haja aqui mais para o sul. A zona da Serra de Arronches foi, por exemplo, estudada em 1917, pelo ABARPAER.
Mas a maior parte da arte rupestre é realmente, arte rupestre ao ar livre; e ela é muito singela como nós dizemos em português, muito simples, não é espetacular. Ás vezes são figuras isoladas, como essa mão, ou então simples representações das tais covinhas, cruzes, não são espetaculares. E esse é um dos grandes problemas, porque é extremamente complicado muitas vezes produzir coisas que não tem grande atração e a maior parte das pessoas não entende o que é.
Existe em Portugal uma única gruta paleolítica, descoberta em 1963, foi descoberta no Alentejo, na parte mais ao sul. Porque Portugal não é um país que tem muitas grutas, portanto, isso é em parte uma explicação. E a gruta mais ocidental da zona franco-cantabrica está em Portugal, portanto. E é realmente interessante por muitos motivos porque repete do ponto de vista iconográfico, realmente, a temática habitual franco-cantabrica com os cavalos e outros animais.
Dessas cerca de 400 imagens, a maior parte delas são gravuras, embora haja algumas pinturas. Essa continua a ser um único vestígio de arte paleolítica que nós temos, portanto, em gruta em Portugal.
Nos anos 70 deu-se aquilo que eu acho uma revolução do ponto de vista da arte rupestre portuguesa, que é uma descoberta no Vale do Tejo. No Vale do Tejo é uma zona onde infelizmente começa a nossa tragédia, porque há uma sucessão entre barragens e gravuras. Todas as figuras que vocês vão ver aqui não existem, porque foram cobertas pela água dessa barragem, que é a barragem de Fratel. Isso aconteceu nos últimos anos da ditadura e, portanto na época não houve um mínimo de protesto, não se sabia de nada, quase nada aconteceu. O grupo de estudantes que trabalhou lá fez um trabalho excelente, porque com essas grandes dificuldades, conseguiu pelo menos decalcar. E decalcou algo entre vinte a trinta mil gravuras, são quarenta quilômetros completamente cobertos. E o problema vocês vêem, porque as gravuras não são só em vertical, mas são no próprio leito do rio. Não foi possível retira-las e leva-las para outro sítio, não é possível faziam parte do próprio rio.
O Tejo tem numerosas representações de animais, vocês vêem aqui alguns exemplos. Mas também tem representações de figuras humanas esquemáticas, que aparecem na arte rupestre esquemática pintada na Espanha. Portanto, não são extraordinárias deste ponto de vista enquadram-se exatamente nesse tipo de arte.
E, está hoje completamente submerso, nós não sabemos hoje o estado das gravuras; pensamos que provavelmente estão destruídas.
Nos anos 80, outra grande revolução foi a descoberta deste cavalo: o Cavalo de Mazouco; é a primeira gravura no estilo paleolítico que foi descoberta na Europa. Realmente revolucionou completamente aquilo que era o mundo do paleolítico e da arte rupestre; que é o mundo das grutas, que se passava na escuridão e começou a passar cá para fora.
No primeiro momento claro quando o cavalo do Mazouco foi publicado, ele encontra-se aqui no Douro Internacional, não foi aceito como paleolítico, não é. Falava-se na realidade como estilo paleolítico, parecia que tinha esse mesmo tipo de representação. Hoje é claro evidente, que se trata de um exemplo desse tipo da arte que agora passa a ser bastante comum, que é arte paleolítica ao ar livre.
E finalmente nos anos 90 dá-se aquele momento que é um dos mais importantes da investigação da arte rupestre em Portugal, que é o caso da descoberta das gravuras do Vale do Côa. O que aconteceu, é que numa zona muito árida, vocês vêem aqui, ao norte de Portugal, no nordeste praticamente transmontano, estava a ser construída mais outra barragem. E durante o processo de estudo de impacto ambiental, depois da própria construção da barragem, foram identificadas algumas gravuras. O problema é que isso não foi dito, foi escondido e durante dois anos um único arqueólogo trabalhou na zona sem dizer nada a ninguém. Até que aquilo se transformou numa batata quente, como nós falamos em Portugal, e em novembro de 1994 foi tornado público, foi denunciado por nós a presença dessas gravuras e iniciou-se uma grande batalha para salvar as gravuras do Vale do Côa.. Essa batalha teve, por exemplo, protagonistas muito importantes: as crianças da zona de Foz Côa que aparecem. Que foram elas que criaram o slogan – As gravuras não sabem nadar! E participaram, portanto, desse movimento que teve uma participação muito limitada dos arqueólogos, não foram muitos. Mas, que contribuíram muito no pátio das escolas, nos meios de comunicação e entre a comunidade internacional. Se não tivesse sido a comunidade internacional, não teria sido possível.
Aqui está uma manifestação feita com estes tópicos a frente da zona de construção. Portanto, em novembro de 1995, finalmente, o governo português cedeu às pressões internacionais, e as pressões do movimento para salvaguarda da arte rupestre do Côa e parou com a construção da barragem.
O que vocês vêem aqui é a zona de construção da barragem. Ela devia ser assim: tinha 130 metros de altura e ia cobrir até a cota 210.
Imagens da apresentação de Mila Simões Abreu :




















