I Seminário Internacional sobre Preservação da Arte Rupestre nos Sítios do Patrimônio Mundial

Parque Nacional Serra da Capivara - 22 a 25 de abril de 2004.

 

A arte rupestre da região do Seridó, no Rio Grande do Norte e na Paraíba.

Gabriela Martin

Quero começar lembrando que a criação da Associação Brasileira de Arte Rupestre-ABAR, foi uma iniciativa da professora Mila Abreu, da Universidade de Tras-os-Montes e Alto Douro, por ocasião do Congresso Internacional de Arte Rupestre em Vila Real, (Portugal), em 1997. Constatando que o grupo mais numeroso de assistentes por país, era o do Brasil, ela nos fez a proposta de criar a associação. Reunidos os pesquisadores presentes, criamos a ABAR e, por unanimidade, nomeamos como primeira presidente a Niède Guidon, substituída, depois por Anne-Marie Pessis.

Vou explicar um pouco o que é o Seridó e depois mostrarei apenas algumas fotografias para que entendam o motivo pelo qual eu falo dessa área ou província rupestre do Seridó que não é parque nacional, nem patrimônio mundial, mas cuja apresentação se justifica, com vou tentar demonstrar.

Na década de oitenta se estabeleceram duas macro-categorias básicas na sistematização inicial da arte rupestre no nordeste do Brasil que se chamaram Tradição Nordeste e Tradição Agreste que demonstraram uma marcada complexidade e sua evolução no tempo e no espaço. Nos trinta anos de pesquisa em torno da arte rupestre no Nordeste noventa por cento delas foram realizadas por membros da Fundação Museu do Homem Americano em parceria com a Pós-Graduação em História e depois em Arqueologia da Universidade Federal de Pernambuco. Ao longo desse tempo enriqueceram-se as duas categorias que são, na realidade, duas categorias de entrada para dar início a uma sistematização da arte rupestre no Nordeste do Brasil. Conseguiram-se estratigrafias arqueológicas que demonstraram que as províncias rupestres em relação com essas crono-estratigrafias remontavam pelo menos em torno de doze mil anos até dois mil anos, que seriam as últimas manifestações.

A partir dessas categorias ou tradições, foram criadas subtradições que nós classificamos como núcleos emigrados do núcleo central para outras regiões estabelecidas em áreas com condições ecológicas diferentes, o que implica em aportes novos, em elementos novos que enriqueciam e mudavam a estrutura primitiva, diríamos, da tradição. Mas, mantendo um núcleo central, um fio condutor. Entre todas as subtradições da Tradição do Nordeste que foram indicadas, por enquanto, não digo que para sempre, a subtradição Seridó é a que tem apresentado maior riqueza de elementos porque tem sido mais estudada. Se tivéssemos agora que marcar um epicentro, um berço da origem dessa Tradição no Nordeste, em princípio como hipóteses de trabalho, seria na área do Parque Nacional Serra da Capivara. Essa hipótese não é caprichosa, está baseada na grande concentração de pinturas no Parque, mas, também, porque há toda uma evolução estilística muito clara que indica mudanças ao longo do tempo e grupos que teriam imigrado através do Vale do São Francisco à área do Seridó, á Chapada Diamantina, a Pernambuco e outras áreas do Nordeste brasileiro. Isso significa a existência de uma macro- tradição muito grande dentro da amplitude de todo o interior do Nordeste brasileiro.

Praticamente, existem representações rupestres em todos os estados do Nordeste. Então, a hipóteses que levantamos com Anne-Marie Pessis e também com Niède Guidon, quando vimos como eram as pinturas do Seridó, foi que realmente tinham uma origem comum e não foi somente porque elas sejam de tamanho reduzido, porque compartam determinada técnica, ou repitam determinadas cenas. Nos baseávamos, sobretudo, no que chamamos cenas “emblemáticas”, ou seja, cenas que representam fatos que não sabemos o que estão representando. Possivelmente são cerimoniais, mas não se trata de uma cena de dança ou de guerra, ou de sexo. São de fato cenas que são muito específicas e que aparecem aqui no Parque Nacional e que aparecem em outros pontos do Nordeste a mil quilômetros em linha reta, a mil e duzentos quilômetros como é o caso do Seridó. Não queremos afirmar com isso, que se trate de grandes migrações. Muitas vezes os elementos culturais avançam na frente dos homens. A transmissão cultural pode-se realizar sem necessidade, de grandes migrações, mas, sem dúvida, uma idéia, o mito de um grupo, se transmitiu numa série de mensagens que depois se repetem, às vezes com mudanças, com variações, mas sempre com a mesma idéia. Hoje estávamos vendo o museu e mostrei como exemplos dessas cenas emblemáticas o grupo em que duas figuras humanas adultas protegem ou iniciam uma menor de tamanho que poderia ser uma criança, embora não necessariamente, mas de qualquer maneira, é um tema que encontramos aqui e encontramos a distancias muito grandes e em todos os abrigos do Seridó. Digamos que a originalidade, o encanto dessa outra visão do Seridó é a riqueza de atributos e as vezes que todas essas cenas se repetem praticamente em todos os abrigos. Então, não vou falar de estilos porque não se trata disso, nesta reunião, mas de justificar o motivo de que nos preocupamos com essa área do Seridó. Seguindo a linha que os espanhóis fizeram para declarar patrimônio mundial todas as pinturas que aparecem no arco mediterrâneo, não somente o estilo levantino senão também o esquemático, o macroesquemático todo uma área geográfica que foi determinada. Tudo isso entra dentro do patrimônio mundial. Portanto não há fronteiras. O que pertence ao patrimônio mundial são as pinturas em si. Cada vez que aparece um novo abrigo, um sítio com pinturas, é incluído.

Tenho que dizer que a idéia não foi minha. A idéia foi de Anne-Marie Pessis. Eu, modestamente, pretendia cuidar na medida do possível das pinturas do Seridó que também sofrem uma depredação terrível e fazer o que eu pudesse para preservar. Foi idéia dela tentar precisamente a partir daquela conversa com Valentin Villaverde, de como tinha sido determinado o patrimônio mundial da arte levantina lá na Espanha, a idéia de que poderíamos um dia incluir dentro desse patrimônio mundial do Parque Nacional Serra da Capivara, todas as pinturas do Nordeste ou todas as da Tradição Nordeste.

Na área arqueológica do Seridó não há tanta concentração de sítios com pinturas como aqui no Parque, mas a qualidade delas quanto à riqueza antropológica e quanto à mensagem é tão espetacular como podem ser as daqui do Piauí e que justifica realmente nossa preocupação para que essa área seja protegida. É muito diferente daqui. É uma área muito mais povoada, com mais cidades e os sítios estão mais espalhados em diferentes municípios mais ou menos povoados. Todavia, poderia ser um elemento que nos poderia ajudar e foi criada para isso a Fundação Seridó. A Fundação Seridó é uma filha pequena, mas uma filha reconhecida da FUMDHAM - Fundação Museu do Homem Americano, tanto que a metade dos membros ou mais da Fundação Seridó, somos também membros da FUMDHAM e foi criada precisamente para isso para tentar proteger essas pinturas e esses sítios. Mas, há dois elementos gravíssimos quanto à degradação das pinturas. Aqui está também a doutora Márcia Dantas que é da terra, que nos ajuda na parte administrativa e na parte jurídica e sabe dos problemas que temos tido.

Os problemas da região são os seguintes: em primeiro lugar que está no polígono da seca e sendo, como já foi, uma área de brejos, áreas mais úmidas, ilhas de umidade como as chama Assis Ab’Saber, com rios perenes, o Vale do Seridó e seus afluentes, todo o rio Carnaúba, são hoje junto a certas áreas do Piauí, determinadas pela SUDENE, como uma das regiões do Nordeste onde a desertificação é mais rápida. Os motivos entre outros, são o desmatamento violento porque é uma área que tem umas argilas muito boas e se fabrica cerâmica. Não cerâmica decorativa. São cerâmicas de telha e tijolo. Então, nos fornos de essas cerâmicas, incrivelmente, continuam a ser utilizada lenha e a lenha e tirada de lá. Então, há um desmatamento cruel. À parte disso, são áreas de mineração com minérios e pedras semipreciosas, inclusive com minérios estratégicos. Há uma mina de urânio que está sob a proteção das Forças Armadas. Há também topázios, o famoso topázio rio-grande e água-marinha. As áreas de mineração são terríveis. A depredação é muito grande. Há uma de extração de granito de boa qualidade. Imaginem o que significa vinte anos atrás chegar lá para falar com as empresas mineradoras e dizer que elas não podiam estragar os sítios, que não podiam dinamitar as rochas. Isso teria significado para mim e para as pessoas que me acompanhavam que simplesmente nos dariam dois tiros, ou um para economizar uma bala. Isso é algo que no interior do nordeste, em outros tempos, seria a coisa mais fácil do mundo. Matar facilmente. Hoje as coisas mudaram um pouco e algo se tem feito. Temos denunciado sistematicamente ao IPHAN e ao Ministério Público toda destruição que encontramos. Na verdade, sou uma voz que prega no deserto, mas temos conseguido alguma coisa. Quando se botou dinamite no Sítio do Índio, em Parelhas, cheio de pinturas, a destruição foi imediatamente denunciada por Irma Asón, membro da nossa equipe e que estava pesquisando na área para seu doutorado, dirigido pelo professor Valentin Villaverde sobre essa área do Seridó. Ela me telefonou e, imediatamente, denunciamos a depredação ao Ministério Público e, para mais raiva da nossa parte, a empresa que tinha destruído o sítio, explodido um sítio cheio de pinturas belíssimas da Tradição do Nordeste, era uma empresa espanhola que se chama Mineradora Couto. Tive a satisfação de que, pela primeira vez, uma empresa de mineração, na região do Seridó, fosse multada. Pela primeira vez se apresentou alguém do IPHAN na área e o Ministério Público autuou a uma empresa mineradora, fato que servirá de exemplo para outras.

Depois disso, o IPHAN fez uma reunião com as principais mineradoras de Carnaúba dos Dantas, de Parelhas e outras áreas mineiras, explicando que teriam que contratar um arqueólogo. Ficaram logo querendo rasgar as vestes, dizendo que os juros iam encarecer que já estava muito má a situação na mineração e que não ganhavam dinheiro. O pessoal do IPHAN foi muito cuidadoso para não assustá-los, disse que não se tratava de nada do outro mundo. Trata-se de que cada vez que eles pedem para explorar uma área, tinha que haver uma vistoria arqueológica para ver se havia sítios, porque acontece que a Secretaria de Minas e Energia, como vocês já viram no Norte, dava as autorizações tranqüilamente sem consultar nunca o IBAMA. O IPHAN explicou que alguma coisa foi se fazendo, mas como se tem falado todos os dias aqui, depende muito das prefeituras. Tivemos um prefeito em Carnaúba dos Dantas, que era uma pessoa esclarecida, eletrificou a área rural, deu energia a todas as escolas, nos ajudou e nos facilitou para darmos cursos de esclarecimento, fizemos inclusive, oficinas onde os meninos aprenderam a desenhar com artistas que chegaram do Recife que foram lá de graça para ajudar. Ana Catarina Torres estava presente em uma dessas oficinas e as crianças pintaram e se divertiram muito. Começaram a ter consciência da importância do patrimônio que eles tinham. Acontece que essa educação logicamente é uma educação em longo prazo. Muitos deles são filhos de garimpeiros, de mineradores e, logicamente, os meninos podem achar que as pinturas rupestres são muito importantes, mas os pais mandam calar a boca.

Em Carnaúba dos Dantas há uma lei municipal de proteção dos sítios. Mas, depois é o que acontece com a política. Muda o prefeito e o que veio depois era uma besta quadrada. Tudo o que ele fez foi uns bonecos de barro horríveis, de tamanho natural, querendo representar os índios pintando os abrigos no meio da praça da cidade e, além do mais com barba, índios com barba. Foi uma vergonha, realmente foi uma tragédia. Estão chegando ônibus para visitar os sítios sem nenhuma proteção e, logicamente, escrevem lá João ou Maria. Se isso acontece num parque, imaginem num sítio livre que não tem nenhuma proteção. De maneira que há alguns sítios que temos descoberto depois, alguns abrigos que graças a Deus ninguém sabe onde estão porque é muito dificil de se chegar até eles. É muito triste ver que os sítios que eu vi, faz vinte anos, em muitos as pinturas apenas se adivinham. Pinturas que foram desenhadas nos anos vinte do século passado por José Azevedo Dantas, e que hoje não existem mais ou restam sombras que se adivinham, porque está havendo uma degradação muito grande.

Temos o Sítio do Messias, situado no alto da serra, escondido, difícil de atingir, donde e as pinturas, apesar de ter apenas quatro ou cinco centímetros de tamanho, estão nítidas, protegidas pela mata fechada como se as tivessem acabado de pintar, entretanto que a ação dos visitantes “de domingo”, das mineradoras e das fábricas de cerâmica representam um impacto terrível.

Temos que tomar medidas imediatas nessa área do Seridó e outras em longo prazo. Na medida em que temos uma pós-graduação em Arqueologia recebemos alunos do Rio Grande no Norte e da Paraíba com uma maior conscientização do valor desse patrimônio. Acredito que dará para salvar e para proteger umas pinturas que tem todas as qualidades para formar parte, um dia, desse sonhado, desse almejado patrimônio mundial, o que não significa que quando se forma parte do patrimônio mundial no dia seguinte os monumentos estejam protegidos, embora seja mais uma forma de poder conscientizar ao público.

No mapa do Rio Grande do Norte, a área do Seridó faz fronteira com outro estado que é o estado da Paraíba. Há pinturas e gravuras, gravuras inclusive muito abundantes, muito bonitas na beira de cursos d’água das quais recentemente houve uma dissertação de mestrado orientada por Anne-Marie. Essa é uma área que chamamos Área Arqueológica do Seridó. O epicentro das pinturas da tradição Nordeste estão, sobretudo, aqui em Carnaúba dos Dantas e em Parelhas. Tem também nos municípios de Pedra Lavrada e Picuí, na Paraíba. Temos feito prospecções em toda a região. O Rio Seridó e seus afluentes formam parte da grande bacia do Rio Açu-Piranhas e temos constatado que há uma fronteira muito clara; uma fronteira muito marcada. Essas pinturas da Tradição Nordeste, subtradição Seridó, não ultrapassam o vale do Seridó e seus dois afluentes o Carnaúba e o Acauã. Nos outros lados das serras que circundam esses vales, apesar de que há também bastantes pinturas, elas já pertencem a outras subtradições ou tradições rupestres. Temos ampliado a área de pesquisa em Cerro Corã e a Currais Novos, Cerro Corã é alto, tem um clima muito agradável no aspecto de brejo de altura; tem pinturas também da Tradição Nordeste, mas já não são da subtradição Seridó, ou seja, se determina perfeitamente, por enquanto, uma fronteira de influência, uma fronteira de ocupação ao longo do vale do Seridó. Por que os grupos não passaram no outro lado da serra? Porque obviamente havia outros grupos que não os deixaram e esse é um trabalho também do arqueólogo e não somente o estudo das pinturas rupestres. É curioso que a última cidade que tem pinturas da subtração do Seridó seja Pedra Lavrada, já na Paraíba. A partir daí dominam as gravuras. Assim, o epicentro da subtradição do Seridó está nos vales dos rios Seridó e Carnaúba. A Tradição do Nordeste se estende para outros pontos, mas já com características diferentes.

Para maior impacto, vou passar duas ou três imagens onde se vê a destruição de um abrigo; algumas figuras pré-históricas ainda se vem, mesmo com a concreção calcária que está escorrendo sobre as pinturas. Mas aqui chegou alguém que se sentia “um artista” e não se limitou a colocar seu nome como fazem quase todos. Nesse caso, o visitante se sentiu um artista e completou o desenho. Um lajedo só de gravuras, então ele gravou o quadradinho dele. As figuras não muito claras, mas essas fileiras de figuras humanas pequenas que são muito típicas na tradição no Nordeste e aqui esse horror. Bem, isso é apenas um detalhe. Eu já vi coisas como: este sítio foi pesquisado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Com letras em purpurina, cor de prata. Eu limpei. Bem, eu quero também dizer que a professora Conceição Lage, esteve lá com sua equipe, limpamos todas as pinturas que foram possíveis de limpar, ela deu um pequeno curso e fez algumas experiências. Depois se ela quiser, posso passar-lhe a palavra porque ela identificou dentre dos minérios que há na região, o caulim , o óxido de ferro e fez algumas experiências de maneira que há um trabalho para fazer.

Podemos ver que, dentro da Tradição Nordeste, as pinturas rupestres do Seridó são, digamos, irmãs ou primas das pinturas que aparecem aqui, com imagens semelhantes que representam o mesmo fato, mesmo que não saibamos que fato seja e que existem aqui no Parque Nacional Serra da Capivara. Quero chamar a atenção para as pinturas que nos parecem mais antigas, que chamamos Serra da Capivara II, são muito mais parecidas com as que se tem aqui. Depois uma fase posterior na qual há maior riqueza de atributos e, aparece uma forma de tratar a cabeça que é típica dessa região do Seridó; dessa subtradição do Seridó, que chamamos de cabeça em forma de caju. Cabeça em forma de anacardum e que é muito simples, mas muito expressiva porque inclusive, em cenas de luta, de estupro, que há algumas violentíssimas, na cabeça da mulher essa abertura é muito maior. Então, pensa-se no momento em que ela está gritando, apenas com um pequeno traço.

Há figuras que levam bolsas, outras que estão dançando, se movimentando, bem expressivas com recursos que chamaríamos expressionistas. Pequenas figuras que a princípio nos pareciam aquelas coroas-de-frade, esse cacto que vocês conhecem, mas que depois, quando se amplia a fotografia, vemos que, na realidade, são pequenos antropomorfos, segurando uns nos outros pela mão.

Figuras que dão sensação de leveza como se saltassem, como se dançassem, como se flutuassem. O suporte azulado de alguns sítios, deve-se a que vários abrigos estão formados por micaxistos com, às vezes, veios de quartzo e em alguns deles o micaxisto se esfolia em lâminas, o que aumenta a degradação, pois, naturalmente, a degradação não é só antrópica, existe também, a degradação da rocha.

Existe um tipo de grafismo que tenho considerado emblemático da subtradição Seridó, que está representado em todos o abrigos, repetidos, embora não sejam iguais; lembram a forma de uma piroga e, em vários casos, apresentam figuras humanas no interior, fazendo parte da composição. Depois Anne-Marie Pessis , apoiada em comparações de tipo etnográfico sugeriu que poderiam representar redes, muito usadas nos rituais funerários indígenas. De maneira que o caso dessa possível “piroga” é um exemplo de como na arte rupestre se deve interpretar o menos possível para não ter, depois, que se desdizer.

No exemplo desse grafismo emblemático de que falamos, há um caso em que aparecem ate sete figuras dentro, com uma figura principal portadora de um grande cocar. Mas, nos desenhos realizados por Hans Staden, no século XVI, aparecem enterramentos em redes e com carpideiras chorando em torno da rede onde se encontra o defunto. Poderia também tratar-se de uma representação estilizada desse ritual. Nesse caso, temos que pensar que são grupos que já conheciam algum tipo de tecelagem e que fabricavam redes.

Outro grupo de grafismos, forma uma cena com duas figuras humanas colocadas de costas entre si e que, aqui na Serra da Capivara, aparece assinaladas com três dígitos que lembram flechas e são cenas emblemáticas das pinturas rupestres da Tradição do Nordeste aqui no Parque Nacional. São figuras que aqui chamam de “dorso contra dorso” ou costas contra costas e que aparecem, também, em muitos dos abrigos do Seridó. As identificamos, mas não sabemos o que significam. Por isso vamos tentando identificar esses emblemáticos que indicam cenas cerimônias e que caracterizam precisamente esses grupos que podem ser originários daqui e ter chegado até essas regiões.

A maneira de pintar as aves corredeiras, as emas, aves com as asas abertas correndo são também figuras que aparecem por toda a Tradição Nordeste. Um antropomorfo, uma figura humana com os braços levantados, que é comum na tradição Nordeste, com um cocar de longas penas, uma figura isolada, outras vezes formando grupos. Há sítios que tem que ser estudados com todas as técnicas de levantamento de superposições para fazer toda uma estratigrafia dessas superposições. No painel do sítio chamado Furna dos Caboclos há uma quantidade de superposições muito grande que tem que ser trabalhada com os recursos informáticos que hoje temos. Há figuras humanas em branco, com outras vermelhas pintadas por cima. Às vezes é o caso de terem sido repintadas. São figuras com a cabeça em forma de caju pintadas na cor branca e amarela que, às vezes em alguns casos, sobre o grafismo branco foi depois repintado em vermelho. Então, isso nos vai permitir pelo menos separar as superposições .Está claro que há um período anterior onde se pintou em branco e depois se cobriu com outras pinturas em vermelho. Por exemplo, quatro figuras humanas, quatro antropomorfos que parecem que estão se segurando pelas mãos. Sempre com essas cabeças pintadas de perfil, é possível que sobre a tinta branca depois se fez um repasse vermelho ou não. O sítio Talhado do Gavião, é um caso típico também de muitas superposições e que em princípio pensamos que se trataria de uma terceira época, uma época posterior na qual aparecem grafismos como se fossem desenhos de tecido. É uma fase em que se aprecia uma tendência a aproveitar os espaços onde se pinta ao máximo e sempre com os mesmos símbolos, como esse desenho em forma de barca ou de rede. Há uma acumulação muito intensa de grafismos em espaços pequenos e limitados. Temos que estudar como vamos poder salvar esses novos sítios que, afortunadamente se visitam muito pouco porque para alcança-los há uma subida muito íngreme e é bastante difícil subir. Quando eu subia, faz algum tempo, eu e minhas colegas íamos amarradas por uma corda. Então, esses sítios estão protegidos, digamos, da intervenção antrópica, mas não estão protegidos das mudanças ambientais.

Na maioria dos casos se pintou diretamente na rocha, mesmo quando o suporte é extremamente rugoso, embora hajam vários casos e isso é muito interessante, de preparação da rocha. Deu-se um polimento sobre a rocha e, depois, pintou-se com tinta vermelha a área preparada. Sobre essa mancha vermelha se fez a gravura. Não há muitos sítios assim, mas sim alguns, tais como o abrigo Casa de Pedra que foi trabalhado assim. Há uma verdadeira preparação do suporte para pintar depois. Agora, são desenhos esquemáticos e não cenas, mas não deixa de ser muito interessante a idéia de preparação do suporte. No abrigo “Serrote das Areias” onde o suporte é extremamente rugoso, aproveitou-se um veio de quartzo para pintar o painel, somente na parte onde o suporte é branco e liso.

Nas cenas representadas nas pinturas do Seridó vemos que se está contando uma história. Grupos estão caçando veados, outro grupo leva bolsas e mais adiante, no mesmo abrigo aparece uma espécie de dança de roda. Algumas figuras apresentam atributos e adornos indicadores de hierarquias, outras são mais simples, sem atributos nem armas. O que está acontecendo nas pinturas do Seridó, parece como histórias em quadrinhos que seguem uma seqüência como por exemplo as cenas de sexo e depois aparece o parto. Muitas cenas não sabemos, realmente, o que representam mas verificamos que a intencionalidade é dar a impressão de movimento. Os grupos humanos representados são portadores de bolsas, cestas e armas. Não aparecem arcos e flechas, o que aparecem são propulsores ou bordunas, o que pode significar um dado cronológico.

Bem, queria apenas mostrar que existe toda uma área de arte rupestre extremamente rica na região do Seridó que, como tantas outras, encontra-se em perigo da destruição.

 

Imagens da apresentação de Gabriela Martin :

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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