Flora
O Parque Nacional Serra da Capivara situa-se no Domínio Morfo-Climático das Caatingas, mas, se passearmos pela região, poderemos verificar que ele é uma área de transição.
As plantas da caatinga têm adaptações específicas para a seca, porque, mesmo durante a curta estação de chuva, faz muito calor durante o dia, os recursos em água são reduzidos, a evaporação e transpiração das plantas são intensas. Os vegetais devem também resistir a vários meses, às vezes anos, de seca. Várias adaptações morfológicas, anatômicas ou fisiológicas se combinam para permitir esta resistência.
As mais aparentes são as relativas à forma exterior das plantas, ou seja, as morfológicas. Elas procuram, na maior parte dos casos, limitar a superfície em contato com o ar ambiente, para reduzir as perdas de água. Assim, as folhas têm superfície reduzida, ou se reduzem a espinhos, limitando a evapo-respiração, ou seja, a quantidade de água que uma planta perde por evaporação e pela respiração.
As plantas com tubérculos, ou outros tecidos capazes de armazenar água, que é o caso das plantas chamadas suculentas, também são freqüentes.
O comportamento das plantas da caatinga também é particular: nas horas mais quentes do dia, as folhas ficam penduradas, obliquas em relação aos raios do sol; os estomatos, essas minúsculas aberturas na superfície das folhas, que permitem as trocas com a atmosfera, permanecem abertos muito pouco tempo. Certas espécies, em geral as plantas herbáceas, se adaptam também às condições de aridez realizando todo o seu ciclo, desde a germinação até a frutificação, durante a estação úmida. Depois, elas permanecem presentes no solo, no estado de grãos esperando as primeiras gotas de chuva para germinar. Mas o caráter mais aparente da caatinga é a queda das folhas, quando começa a estação seca, outra maneira de reduzir a perda de água.
No começo da estação chuvosa, percebe-se, claramente, a diversidade de espécies que compõem a caatinga. Há, provavelmente, na região do Parque Nacional Serra da Capivara, mais de mil espécies vegetais. Até hoje um pouco mais de seiscentas foram catalogadas, mas o inventário deve continuar em lugares diferentes e em épocas diferentes, porque certas plantas têm uma vida muito curta.
Na caatinga dominam as famílias das Euphorbiáceas (maniçoba e marmeleiros), das Leguminosas (juremas e jatobás) e das Bignoniáceas (carobas e paus d’arco), enquanto que no cerrado são numerosas as Compostas, as Gramíneas e, também, as Leguminosas que dominam pela quantidade de espécies presentes. Mas o que chama a atenção é a presença de representantes de duas famílias de plantas, as Cactáceas e as Bromeliáceas que são, unicamente, americanas. Cada uma é representada por apenas uma dezena de espécies, na região, mas, dão à paisagem uma marca particular.
Entre as Cactáceas, encontramos o mandacaru (Cereus jamacaru), que, como o facheiro (Cephalocereus piauhyensis), pode alcançar vários metros de altura. Outros cactos são mais ramificados, como o xique-xique (Cephalocereus gounellei), ou, pelo contrário, quase lineares como o rabo de raposa (Arrojadoa rhodantha) de flores de cor rosa vivo. Há também cactos com galhos em forma de raquete, como o quipá (Opuntia inamoena) ou a palma (Opuntia ficus-indica), espécie cultivada para a alimentação do gado. Temos também cactos com forma de bola e espinhos fortes, como a cabeça de frade (Melocactus bahiensis).
Entre as Bromeliáceas, a mais importante é sem dúvida o caroá (Neoglaziovia variegata), que cresce, freqüentemente, nos interstícios das rochas e cuja fibra era usada, antigamente, para fabricar tecidos. Essas diferentes espécies (excetuando a palma cultivada), mas também outras, pertencentes a diversas famílias, são endêmicas da caatinga, ou seja, são encontradas somente no Nordeste semi-árido ou árido.
O planalto é coberto por uma vegetação densa uniforme, atualmente entrecortada de monoculturas de caju. Trata-se de um tipo de caatinga, um pouco particular pela sua composição florística, chamada de carrasco, por certos autores, mas que, localmente, guarda o nome de caatinga.
Os boqueirões estão ocupados pela floresta, que alcança vinte metros de altura. Algumas árvores têm mais de 60 cm de diâmetro. Esta floresta não perde suas folhas totalmente, como a caatinga, ela se renova continuamente, ao longo do ano. É uma floresta semi-decídua. Sua composição florística também é diferente da das caatingas vizinhas. As Sapotáceas, Mirtáceas e Anonáceas dominam, enquanto que as famílias que abundam na caatinga são, aqui, mais discretas. Certas espécies dos boqueirões são comuns em outras formações vegetais mais úmidas do Nordeste e, até, da região peri-amazônica ou da mata atlântica. Estas florestas ocupam, hoje, pequenas superfícies, pois foram amplamente cortadas para deixar lugar às roças das comunidades locais, mas têm um interesse particular, como marca da história das mudanças climáticas da região.
Nos contrafortes da serra, onde emergem os micaschistos, encontramos uma caatinga alta composta, quase que exclusivamente de angicos (Anadenanthera macrocarpa), árvore muito explorada, tanto pela sua madeira, de excelente qualidade, como pela sua casca que serve para curtir o couro.
O sopé da serra tem muitas pequenas elevações, os maciços calcários, localmente chamados serrotes, que eram explorados para produzir cal. A vegetação está muito degradada, porque as árvores serviram para alimentar os fornos de cal. Esta produção é altamente destrutiva, pois exige grande quantidade de madeira, geralmente de lei, para a queima do cal.
Na parte sul, na planície, a vegetação é mais aberta e a marca do homem mais intensa. Os tabuleiros são entrecortados de espaços cultivados com culturas de subsistência (mandioca, feijão, milho) ou para a venda. Perto das casas, encontramos árvores simbólicas da caatinga, o umbuzeiro (Spondias tuberosa) com a copa muito espalhada, que fornece frutas que se consomem na forma natural ou, sobretudo, sob a forma de umbuzada e, o juazeiro (Ziziphus joazeiro), uma das poucas árvores da caatinga que não perde as folhas durante a estação seca.
Nessa vegetação, o que chama também a atenção, são as árvores com tronco curto e torto, de cor amarelo-avermelhado e que se descascam, formando grandes placas. São as imburanas vermelhas (Bursera leptophloeos). |