Fauna

Sussuarana, onça vermelha (Felis concolor)             Foto: André Pessoa

A fauna do sudeste do Piauí é mal conhecida, já que poucos pesquisadores trabalharam na região. Registra-se apenas a rápida passagem de Spix e Martius, pelo vale do Rio Canindé, no início do século passado, e, mais recentemente, o resultado de trabalhos desenvolvidos por pesquisadores associados à Fundação Museu do Homem Americano.

Na região do Parque Nacional, os refúgios faunísticos são os enclaves de mata semi-decídua dos vales úmidos, essenciais para a fauna, durante a seca. Sua conservação é essencial para a proteção da fauna, visando conservar populações, principalmente de mamíferos e aves maiores e, outros animais, mais vulneráveis à ação humana.

A fauna da caatinga, quando comparada à de outros ambientes como a Floresta Amazônica e mesmo o Cerrado, possui um número reduzido de espécies. Isto se deve às características do clima, que excluem espécies animais incapazes de resistir às secas e à própria estrutura do ambiente, que apresenta uma complexidade menor que, por exemplo, uma floresta tropical.

 

Mixila, tamanduá-mirim (Tamandua tetradactyla)                                            Foto: André Pessoa

 

Um dos motivos, pelo qual, o Parque Nacional Serra da Capivara é tão importante é exatamente o fato de abrigar populações da maioria dos endemismos da caatinga e, pela sua extensão, possibilitar que estas populações tenham número suficiente para garantir a preservação da espécie.

As pesquisas realizadas no Parque registraram, até hoje, 33 espécies de mamíferos não-voadores, 24 de morcegos (que são os únicos mamíferos voadores), 208 espécies de aves, 19 de lagartos, 17 de serpentes e 17 de jias e sapos. Estes números não são definitivos; novas espécies são encontradas com freqüência e, alguns grupos ainda são pouco conhecidos. Além dos animais terrestres, uma única espécie de peixe (piaba) vive em uma caverna cheia de água, no Baixão da Esperança.

Estes peixes, assim como os jacarés que vivem em lagoas e açudes na região ao redor do Parque, são sobreviventes de um período mais úmido, quando os rios corriam durante todo o ano e a vegetação era mais exuberante.

As pinturas rupestres mostram capivaras e, veados com chifres iguais ao do cervo-do-Pantanal, espécies que precisam de ambientes com muita água e, hoje, não mais existem na região. Ao contrário dos jacarés e dos peixes, estes animais não conseguiram sobreviver à mudança em seu ambiente quando o clima começou a se tornar mais seco, ao redor de 6.000 anos atrás. Outros sobreviventes deste período úmido são os macacos guariba e as pacas que vivem nos boqueirões do parque, transformados em ilhas de floresta em meio à caatinga árida e onde estas espécies, tipicamente florestais, estão isoladas.

Entre os mamíferos encontrados no Parque destaca-se o único endêmico da caatinga, o mocó. Este roedor vive sempre associado às rochas, em lajedos, serrotes e boqueirões, já que utiliza as fendas como abrigo contra o calor e contra os predadores. Outro roedor que compartilha este ambiente é o rato-rabudo, que pode ser bastante comum em alguns lugares. Ao contrário de roedores, como os ratos caseiros, tanto o mocó como o rato-rabudo produzem poucos filhotes (geralmente dois - três) em cada cria e, estes nascem com pêlos e olhos abertos, sendo capazes de acompanhar a mãe desde muito cedo.

 

Periquito-da-caatinga (Aratinga cactorum)                                                     Foto: André Pessoa

 

O maior animal predador de toda a região do Parque é a onça-pintada, que pode ultrapassar os 50 kg e se alimenta de praticamente qualquer outro animal que possa capturar. É freqüente ouvir o esturro de uma onça, ecoando nos vales do Parque, principalmente à noite ou de madrugada. Desta maneira,  estes animais, geralmente solitários, mantém contato entre si e atraem seus companheiros durante a época da reprodução.

Outro grande predador é a onça-vermelha ou suçuarana, menor e mais comum que a pintada. Devido ao porte menor esta espécie também caça roedores e outros pequenos animais, mas, no Parque, os tatus são sua presa favorita.

Entre os Primatas, além dos guaribas, existem macacos prego e sagüis no Parque Nacional.

Os tatus, são um grupo tipicamente americano, existindo apenas neste continente, da Patagônia até o sul dos Estados Unidos. Cinco espécies foram registradas na região do Parque : tatu-peba, tatu verdadeiro, tatu-bola, tatu-china e o tatu-canastra, este já extinto.

 

Jibóia (Boa constrictor)                                                                               Foto: André Pessoa

 

As aves são sem dúvida, o componente mais conspícuo da fauna do Parque, que abriga quase todas as espécies endêmicas da caatinga. Algumas, como a guinguirra, o cão-cão e o galo-da-campina, são comuns e têm populações numerosas no Parque. Mesmo algumas, consideradas raras ou em perigo de extinção, como o bico-virado-da-caatinga, são vistas no Parque.

Devido às grandes mudanças sofridas pela vegetação nas diferentes estações (chuvas e seca) muitas espécies de aves apresentam flutuações muito amplas em seus números, surgindo quando há disponibilidade de alimento. Entre estas estão várias espécies de papa-capim e pombas, como a avoante, que chega, aos milhares, durante o período de reprodução, elas se alimentam, principalmente, das sementes de marmeleiro, que floresce assim que chove.

Há outras aves migratórias. Na Serra Branca, é possível, observar o gavião-papa-gafanhoto, que passa pelo Piauí quando migra dos Estados Unidos, fugindo do inverno gelado, para a Argentina que, neste período, está em pleno verão. Nos açudes e rios também é possível encontrar maçaricos e batuíras, que ali param para descansar. Estas aves migratórias, fazem seus ninhos na região norte do Canadá e Estados Unidos, onde o verão é curto e neva no inverno. Quando os filhotes podem voar, as aves vêm para a América do Sul, voando mais de 10.000 km em menos de um mês. Quando começa a fazer frio aqui, elas retornam para a América do Norte, onde, então, já é verão. São notáveis as andorinhas que utilizam os paredões da cuesta e dos canyons internos para se aninhar. As que chegam em outubro/novembro, vêm do Canadá; as que aqui chegam em junho, vêm do sul do Brasil. Suas revoadas, ao cair do sol,  são um espetáculo único.

 

Sagui, soinho (Callithrix jacchus)

 

Andando pelo Parque é possível encontrar bandos com várias espécies de aves como chocas, papa-formigas e corruíras procurando alimento juntas. Estas associações são consideradas uma forma de facilitar o encontro dos insetos que as aves comem (uma apanha, o que a outra espanta) e de defesa contra gaviões, já que há mais olhos atentos aos predadores.

O Parque Nacional abriga várias espécies de aves consideradas ameaçadas de extinção no nordeste do Brasil, como o urubú-rei, a arara-vermelha, o pintassilgo e a maracanã e, outras, cuja situação inspira cuidados por estarem em processo de redução populacional e destruição de seu ambiente, como o balança-rabo-da-caatinga, a zabelê e o jacu-guaçu, todos endêmicos do nordeste do Brasil.

Raríssima é a aguia-chilena, que pode ser vista em alguns dos boqueirões do Parque Nacional ou voando muito alto na borda da chapada.

 

Lagartixa-de-lajedo (Tropidurus helenae) - endêmico

 

Ao visitar os sítios arqueológicos, é impossível não encontrar um lagarto, com costas vermelhas, correndo pelas pedras. Provavelmente é o animal mais comum do Parque. Este lagarto só existe na Serra da Capivara e nos serrotes mais próximos, sendo endêmico da região do Parque.  Ele só foi reconhecido, pelos cientistas, como uma espécie diferente das outras, em 1990. Esta espécie apresenta dimorfismo sexual, ou seja, os machos adultos são diferentes das fêmeas, são maiores e mais robustos e, não têm, a cor vermelha nas costas.

Os maiores lagartos da região são o camaleão ou iguana, que se alimenta de folhas e frutos e, o teju que come frutas, mas, também, animais menores e ovos. Ambos podem chegar a 2 m de comprimento, com uma imensa cauda!

Ao contrário dos lagartos, vegetarianos, todas as serpentes são carnívoras. As espécies maiores como a jibóia, a caninana e a cascavel comem roedores, como o rato-rabudo e, aves. É possível encontrar a jibóia, emboscada no alto de uma árvore, esperando uma avoante. As espécies menores, como a bicuda e a cobra-cipó caçam lagartixas, jias e mesmo insetos e lacraias. Algumas espécies, como as jararacas, mudam de preferência, conforme crescem. Quando pequenas comem lagartos, enquanto que as adultas preferem ratos.
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