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4.2 - Umbuzada e Esteira de Umbu
INVENTARIANTE: Nívia Paula Dias de Assis
CATEGORIA: Técnicas
PRODUTO: UMBU OU IMBU
RESULTADO: Umbuzada e Esteira de Umbu
INFORMANTE: Joana Dias da Silva
IDADE: 70 anos
LOCALIDADE: Salininha – Coronel José Dias -PI
DATA: 16/01/2007
1 – RELEVÂNCIA DO REGISTRO:
O umbu é uma fruta típica do sertão. No período de chuvas, de outubro a março, desponta juntamente com os recursos da lavoura remontando o período de fartura. O sertanejo aprendeu a conviver e aproveitar tal recurso, chegando a mapear todos os umbuzeiros da região em que habita. Assim, numa relação de afeto costuma até mesmo a batizar cada um deles (umbuzeiro do umbu branco, umbuzeiro da galha caída, da Tia Zefa, do Mosquito...). Também são montados calendários coletivos (mentais) sobre os meses que cada um deles começa a dar frutos.
2 – DESCRIÇÃO COMPLETA:
A – Características:
1. Planta: umbuzeiro (Spondias tuberosa)
2. Partes aproveitadas; fruto (polpa e casca).
3. Critérios para seleção dos frutos: preferencialmente os maduros
OBS. No início da temporada os primeiros umbus inchados e até mesmo os verdes são coletados e cozinhados para extrair a calda.
B – Extração (do fruto)
1. Local de retirada: umbuzeiros por toda região
2. Coleta: Por volta de 6 ou 7 horas, grupos de mulheres se reuniam e dirigiam-se para os umbuzeiros mais próximos. O primeiro passo era catar os umbus que já estavam caídos no chão; às vezes, alguns animais (bodes e porcos) passavam antes no local e comiam os umbus que estavam no chão, neste caso, o grupo balançava as galhas até o momento em que parassem de cair.
Movimento nº 1: executam movimentos verticais de forma brusca para derrubar os frutos.
Movimento nº 2: agachavam-se para catar os frutos; depositando os mesmos em cestos, cuias e cabaças.
OBS: Em locais mais povoados como no município de Dom Inocêncio, havia a necessidade de sair muito, pois a procura por umbus era grande. As mulheres mais empenhadas saiam rumo aos umbuzeiros entre 4horas ou 5 horas da manhã.
C – Transporte
1. Movimento nº 1: os cestos, gamelas e cuias eram carregados nas cabeças das mulheres. As cabeças eram forradas com rodilhas para facilitar o equilíbrio. As mesmas equilibravam os recipientes e caminhavam do local de coleta até a casa de morada.
OBS: Para as crianças eram dados vasilhames menores, onde colocavam os umbus e transportavam na cabeça.
Tempo: O processo de derrubada, coleta e transporte demorava cerca de 1hora a 1 hora e meia; variando de acordo com a distancia dos umbuzeiros.
D – Lavagem:
Movimento nº 1: despejava-se a água que estava armazenada em potes dentro das cuias e gamelas. Em seguida a matriarca da família lavava os frutos.
Movimento nº 2: cada fruto recebia um pequeno corte de 1 cm.
OBS: O corte facilitava a etapa seguinte, na qual os frutos seriam espremidos.
Movimento nº 3: Após este procedimento os umbus eram depositados em alguidares.
Tempo: de 8 horas às 8:15 horas.
E – Espremer:
Movimento nº 1: ainda no alguidar começava-se a espremer os umbus, para obter a calda.
Tempo; 8:15 a 8:45 horas.
OBS: A quantidade de frutos coletados baseava-se no consumo para um dia. Era também este fator que determinava o estado físico da calda, pois para o aproveitamento imediato ela era utilizada na sua forma líquida; mas quando se pensava num consumo futuro, posterior á temporada dos frutos, transformavam o líquido em barras sólidas e consistentes conhecidas como “esteira de umbu”.
1- ESTEIRA DE UMBU:
Após extrair a calda dos umbus, pegava-se uma tábua de 70 cmx40cm e nela despejava-se cuidadosamente 2 litros de calda. Antes, porém, fazia-se uma espécie de barreira protetora, com caroços de umbu, nas extremidades da madeira para que o líquido não derramasse. A quantidade despejada em 1 dia era sempre 2 litros, e isso era feito em média em 4 dias, sendo que o critério para acrescentar uma nova camada era que a anterior já estivesse seca (sólida).
Tempo: por volta de 9 horas era despejada a calda na tábua (uma camada) ficando a mesma exposta ao sol durante o restante do dia até garantir sua secagem.
OBS: Esta era uma alternativa para aproveitar ao máximo o “período de fartura do umbu” e continuar tomando umbuzada no período de seca. Até mesmo as cascas dos frutos passavam pelo processo de secagem ao sol, pois também podiam ser aproveitadas em épocas de mais escassas, na produção de umbuzada.
2- UMBUZADA:
Para 3 litros de leite de vaca ou cabra, despejava-se 2 litros de calda. Em contato com a mesma o leite imediatamente dava sinais de coalho (ficava um pouco cortado).
Mexia-se a mistura e estava pronta a “bebida láctea de umbu”
No caso da esteira de umbu (barra de 8 litros), dividia-se a mesma em 4 pedaços iguais, depois pegava-se apenas 1 (2litros) e cortava em pedaços ainda menores. Estes eram despejados em 3 litros de leite. Em contato com o mesmo as barras iam gradativamente desmanchando.
OBS: O leite podia ser cozido ou cru. A umbuzada era servida pura, com farinha ou com beiju. Algumas pessoas acrescentam um pouco de açúcar. Geralmente é consumida no jantar.
3- INSTRUMENTOS DE TRABALHO:
Alguidar: Vasilhame de metal ou madeira de porte médio para uso doméstico. Na região tem a mesma função de um balde grande e era utilizado para armazenar os umbus.
Caroços de umbu: Núcleo duro da fruta. Era usado em volta da tábua onde colocavam a calda de umbu para que a mesma não derramasse.
Cesto: Na região se utiliza para denominar uma cesta sem alça e de maior porte.
Cuia: Vaso feito da cabaça (Lagenaria vulgaris) e esvaziado do miolo.
Gamela: Vasilhame de porte médio geralmente feito de madeira. Tinha a mesma função de uma bacia e era utilizado para lavar os umbus.
Faca de mesa: Pequena e utilizada para furar e descascar os umbus.
Rodilha: Pano enrolado como rosca, e sobre o qual se assenta a carga na cabeça, principalmente em mulheres.
Tábua: Geralmente media 70cmx40cm e era em cima dela onde faziam as esteiras de umbu.
4- GLOSSÁRIO:
Calda de umbu: sumo (líquido) extraído ao espremê-lo.
Esteira de umbu: barras sólidas de calda de umbu.
Umbu inchado: fase intermediária entre o fruto verde e maduro.
Rumo: em direção de.
5-QUESTIONÁRIO
1-Quem participava?
Dona Joana Dias da Silva e seus filhos maiores de 5 ano.
2-Como era feita a divisão das tarefas?
Dona Joana Dias da Silva. |
- balançava os galhos
- Coletava, transportava, lavava, furava e espremia os umbus.
- fazia a umbuzada. |
Seus filhos: Nivaldo, Gildásio, Gilberto, Maria da Conceição, Marlene, Risoneide e Maricildes. |
– balançavam os galhos
- coletavam e transportavam os umbus |
3-Quando acontecia a produção de umbuzada e de esteira de umbu?
Tradicionalmente no período chuvoso, podendo também acontecer em qualquer época, dependendo do estoque de “esteiras de umbu” ou de “cascas”.
4-Outras informações:
Hoje, os moradores da zona urbana de São Raimundo Nonato, ainda fazem umbuzada. Entretanto o umbu é comprado na feira ou aparecem mulheres vendendo de porta em porta. Após espremê-los, misturam sua calda com leite em pó, batendo no liquidificador. Ao invés de “esteiras de umbu”, quando se dispõem a fazer a bebida em épocas que não seja o período certo, compram a polpa.
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