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3.3 - Técnica : Trançado de Cipó
INVENTARIANTE: Nívia Paula Dias de Assis
INFORMANTE: Raimundo Pereira Marques
IDADE: 64 anos
LOCALIDADE: Lagoa das Emas – São Raimundo Nonato – PI
DATA: 21/10/2006
RELEVÂNCIA DO REGISTRO:
Consiste em descrever o processo de fabricação de cestos de cipó, numa comunidade quilombola do município de São Raimundo Nonato. Tal técnica é dominada por integrantes de uma grande família negra que migrou para a região na primeira metade do século XX.
DESCRIÇÃO COMPLETA:
A - Características do cipó:
- Árvore (planta): Trepadeira- Cipó de cesta (Melloa quadrivalvis); sua estrutura consiste num tronco denominado “mãe do cipó”, que sobe numa árvore de porte maior (aroeira, angico e etc.). Os cipós propriamente ditos nascem no eixo central e se espalham pela superfície dos solos mais próximos. Tais ramificações alcançam raios de até 10 metros.
- Critérios para a seleção: a extração dos cipós leva em consideração o tipo, o tamanho e a quantidade de peças que se pretende confeccionar. Para se fabricar cestas (pequenos cestos com alças) selecionavam os cipós mais finos, de modo que não demonstrem estar extremamente novos. Pois estes ainda muito finos e verdes devem ser preservados para a próxima coleta. Para montar um aió, extraem os cipós mais grossos e os cestos, por sua vez, são feitos dos cipós intermediários entre os de fabricar cestas e os de aió.
B – Extração:
- Movimentos: cortam-se as bases dos cipós selecionados, separando-as do “cipó-mãe”, em seguida organizam tais cipós de modo a alinhar todas as extremidades que acabaram de ser adquiridas. Após emparelhá-las, puxam os corpos dos cipós, até o momento em que as outras extremidades serão retiradas por completo da mata, surgindo então aos olhos do extrativista.
- Quantidade: De cada “cipó-mãe” são extraídos até mais de 15 cipós.
OBS: Ao retirar os cipós, cujos eixos centrais (cipós mãe) estejam próximos, deve-se ter o cuidado de colocar cada feixe para uma direção diferente. Pois caso contrário, no momento de puxá-los, pode acontecer acidentes que comprometam a matéria-prima desejada, deixando-a completamente embaralhada.
C – Transporte:
- Organização: cada conjunto de cipó estirado pelo chão é cuidadosamente torcido, em seguida as várias extremidades unidas e torcidas começam a ser enroladas, formando uma “bola” que vai sendo aumentada até atingir a outra parte extrema do traçado montado. No final tal “bola de cipó” é alinhavada e amarrada com um fio do próprio cipó para não desprender no transporte.
- Quantidade: Cada bola com aproximadamente 30 cipós (tamanho 3 m a 10 m).
- Movimentos: As bolas de cipó são carregadas na cabeça ou nos ombros, do local de extração até chegar em casa.
D – Preparação do cipó:
1. Descanso:
- Movimentos: Ao chegar em casa desfaz-se a bola de cipó, de modo a estira-los bem num local com sombra.
- Tempo: Os cipós devem ficar dois dias se desidratando até murcharem.
OBS: No inverno este processo deve ser executado em três dias e na sombra. O sol fraco que aparece no inverno também não pode atingir os cipós em descanso, pois ainda assim os mesmos podem ficar quebradiços.
2. Limpeza:
- Movimentos: Depois de estirados na sombra, começa-se a raspar os dentículos (pequenos espinhos) que existem nas superfícies dos cipós.
- Instrumentos: Pequena faca amolada.
- Tempo: Aproximadamente duas horas (de 10 h às 12 h)
OBS: Tal processo acontece ainda no mesmo dia em que se arranca os cipós, no momento em que se chega em casa.
E – Construção das peças:
1. Critérios:
- Novamente o tipo e o tamanho da peça vão ser os critérios obedecidos, pois dependendo dos mesmos é que se vai montar a base e calcular-se o comprimento das ramificações (pernas) sobre as quais será trançado o corpo.
2. Montagem da base para entrelaçar os cipós:
- Movimentos: Corta-se os cipó em pedaços de 1 m à 1, 20 m
• Miolo externo do fundo: agrupam-se quatro pedaços de cipó, no equivalente a oito extremidades (pernas) disponibilizadas; sobre eles colocam mais quatro pedaços, de modo a formar uma cruz, com todas as pontas de igual tamanho (resultando agora em 16 pernas de cipó). O centro da cruz é então circundado com um outro cipó, de forma a intercalar as quatro extremidades da cruz, como um espiral. Estrutura-se assim o que será o miolo externo do fundo.
OBS: Na montagem do primeiro espiral, ambas as extremidades são isoladas e infiltradas entre os cipós que já começam a formar a base do cesto.
• Miolo interno do fundo: Utiliza-se também oito pedaços de cipós (1m à 1,20m), quatro deles dispostos sobre outros quatro e agora formando um xis de extremidades iguais. O xis é montado sobre o primeiro miolo formado, de modo que suas extremidades (pernas) ocupem os espaços deixados pela cruz que ficou abaixo. Em seguida é feito um segundo espiral que intercalam entre as pernas do xis e da cruz. O ato de tecer consiste inicialmente em ir intercalando a ponta do último espiral entre as pernas abertas do xis e da cruz. Ao findar esta extremidade acrescenta-se novo cipó a tal movimento e assim sucessivamente, até completar o tamanho desejado do fundo do cesto.
OBS: Somente a primeira extremidade deste novo espiral é arrematada, pois a partir da outra já se começa a tecer o corpo do cesto.
3. Montagem do corpo:
- Movimentos: juntos o xis e a cruz formam oito pernas, no equivalente a trinta e duas pontas de cipó, entre as quais serão entrelaçados novos cipós. Ainda com a ponta do segundo espiral (miolo interno do fundo) inicia-se uma divisão diferente para o entrelaçamento, pois até então os cipós intercalavam-se em cada perna (do xis ou da cruz) sempre agrupados de quatro em quatro pedaços de cipós. A partir daí para moldar a estrutura do corpo é necessário ir fechando a peça. Isto se dá através da nova divisão dos cipós da base, onde os demais cipós passam a ser intercalados entre dois pedaços de cipó. É neste momento também que se dobram as extremidades da cruz e do xis para cima, de modo a estabelecer as fundações nas quais o corpo do cesto será tecido.
OBS: A figura formada até então era a de um círculo com várias pontas, como o desenho de um sol. A partir da última fase descrita, começa a surgir a imagem real do fundo, num aspecto côncavo.
O corpo propriamente dito surgirá quando forem executados vários entrelaçamentos de cipós unitários por entre os pares de cipós da estrutura base; até atingir o tamanho ideal do cesto.
OBS: Se necessário abrir ou crescer mais o cesto, ainda se divide as duplas de cipós que formam a base (pernas da cruz e do xis), abrindo-as e enfiando mais cipós nas mesmas. Neste processo os dois pedaços de cipós que já estavam juntos se separam, recebendo cada um, novo membro para formarem dois novos pares.
4. Acabamentos:
- Movimentos: Após tecer o corpo do cesto, as pontas da estrutura base (cruz e xis) estão apontadas para cima, logo elas são dobradas para baixo e enfiadas dentro da trama que já foi tecida no corpo.
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OBS: Esse movimento exige muita agilidade, pois é a própria finalização da peça e a garantia de que ela não vai ser desfeita. As pontas são enfiadas no corpo e em seguida são aparadas, ficando as pontas finais dobradas cerca de 7 cm.
- Tempo: Numa tarde faz-se até dois cestos médios.
INSTRUMENTOS DE TRABALHO:
Espeto de madeira - feito de aroeira, com aproximadamente 30 cm; possui uma extremidade afiada e a outra arredondada, sendo esta última característica para facilitar o manuseio da peça e a primeira para introduzir e isolar melhor as pontas finais da estrutura base, (do xis e da cruz).
Faca - pequena e amolada para aparar as pontas da base.
Sebo - gordura animal na qual a ponta afiada do espeto é lambuzada para facilitar sua entrada na trama do corpo do cesto.
GLOSSÁRIO:
Aió - espécie de cesta sem alça utilizada para transportar alimentos e utensílios. É muito comum a sua utilização na região de São Raimundo Nonato, principalmente em cangalhas em lombos de burros. Durante muito tempo foi utilizada pelos moradores do interior do município para o transporte de mercadorias que seriam vendidas em feiras livres como rapadura, farinha etc. Era utilizado também para transportar crianças.
Cesto - na região se utiliza para denominar uma cesta sem alça e de maior porte.
QUESTIONÁRIO
1- Quem participava?
Inicialmente três indivíduos de uma mesma família: o pai e as duas filhas mais velhas,
Depois, com o passar do tempo os integrantes mais jovens iam sendo iniciados no ofício, como foi o caso de Seu Raimundo Pereira Marques.
2- Como era feita a divisão de tarefas?
Pai
- Coletava, transportava, limpava e trançava o cipó.
- Comercializava as peças
Filhas mais velhas
- Coletavam, transportavam, limpavam e trançavam o cipó.
Filho Raimundo Pereira Marques
- Ainda pequeno ajudava a separar os cipó, após serem coletados
- Ao crescer: Coletava, transportava, limpava e trançava o cipó.
OBS: Seu Raimundo ainda fabrica e comercializa peças de cipó (cestos, cestas e aiós).
3- Quando acontecia a produção de cestos e aiós?
Era feita por encomenda em todo o ano. Durante o inverno confeccionavam cestos para serem utilizados nas colheitas. Já na seca, além dos cestos para servirem de cocho na desmancha, fabricavam aiós para transportar a mandioca.
OBS: Na desmancha da mandioca, também eram utilizados alguidás de argila para colocar a tapioca (confeccionados pelas tias de Seu Raimundo); entretanto, o processo em si era executado em cestos de cipós.
4- Qual era a quantidade vendida?
5- Onde era vendido?
Na região da Lagoa das Emas, por encomenda.
6- Quem eram os compradores?
Fazendeiros e demais habitantes da região. Visto que os utensílios de cipó tinham uma larga utilização em meados do séc. XX.
7- Quais eram os preços?
Um cesto de cipó era trocado por dois pratos de farinha e em determinadas épocas por quatro litros de farinha.
OBS: As trocas também eram feitas por rapadura (esta era trazida da Bahia ou do Maranhão por tropeiros que também levavam para vender o que produziam na região: feijão, farinha, etc).
8- Outras informações sobre a produção, comercialização e uso das peças de cipó.
Em meados do séc. XX em quase todas as casas da região existia um “jogo de aió”. Com a modernização dos utensílios a demanda por cestos e aiós diminuiu muito, mas ainda hoje Seu Raimundo recebe encomendas. Nos últimos meses ele recebeu um convite para confeccionar peças destinadas a uma exposição em Teresina.
Atualmente existem alguns projetos de ONGs que estão buscando desenvolver o artesanato local e diversificando a produção para exposição e vendas em feiras de artesanato.
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