3.2 - Técnica : Trançado de Caroá - Surrão

INVENTARIANTE: Nívia Paula Dias de Assis
PRODUTO: Trançado de caroá - Surrão
INFORMANTE: Jovina Maria de Souza
IDADE: 83 anos
LOCALIDADE: Localidade Onça I – São Raimundo Nonato – PI
DATA: 03/11/2006

RELEVÂNCIA DO REGISTRO:

Consiste numa atividade artesanal extrativista que acontecia ao nível de subsistência nas proximidades da antiga Fazenda Onça, em meados do século XX; a produção era intensiva, contando com cargas horárias semanais nos turnos manhã, tarde e noite, tudo isto para uma comercialização fortuita nas feiras, não recebendo encomenda para tal.
O caroá era utilizado principalmente para a confecção de sacos. O surrão é uma espécie de saco feito de caroá, muito utilizado pelos camponeses na região de São Raimundo Nonato para o transporte da produção do campo para as feiras nas cidades. Transportam principalmente milho e feijão. Ele possui cerca de 80cmx40cm.

DESCRIÇÃO COMPLETA:

A - Características do caroá:

  1. Árvore (planta): Caroá (Neoglaziovia varigata); da família das bromélias, com folhas longínquas e espinhosas. (de 1m à 1,5m)
  2. Critérios para a seleção: As folhas arrancadas eram as de maior porte.
  3. Parte aproveitada da folha: O miolo fibroso (parte interna).

B – Extração:

    1. Local de retirada: Chapadas na localidade Marisco, município de São Raimundo Nonato.
    2. Coleta: Puxavam-se, com as mãos, as folhas de caroá por suas pontas.

OBS: às vezes usava-se pequena luva de couro para proteger contra os espinhos

C – Preparação das fibras:

    1. Movimentos nº1: Após arrancar a folha, fazia-se um corte circular (anelar) próximo a extremidade que estava enterrada, em seguida retirava-se a parte menor, ficando visíveis as fibras propriamente ditas. Para descascar as folhas usavam-se as duas mãos para arrancar as camadas externas num movimento que lembra o descascar de um coco; entretanto, empregando maior agilidade visto que as folhas de caroá são estreitas, longas e com espinhos. Após a retirada de várias fibras, as mesmas eram torcidas e montavam-se pequenos enlaces, para organizá-las melhor. Em seguida, estes enlaces eram organizados em grupos de dez para montar um “mói”.
    2. Quantidade: Coletava-se de dois a três “móis” por dia.
    3. Transporte: Os “móis” eram carregados na cabeça, da Chapada à casa de morada.
    4. Movimentos nº 2: Ao chegar em casa os “móis” eram desfeitos, em seguida,  batidos com um pequeno porrete de aroeira, até o momento em que as fibras ficassem desfiadas.
    5. Secagem: Todas as fibras já desfiadas eram expostas ao sol (14:00h às 17:00h).

OBS: Para extrair e preparar as fibras de caroá gastava-se uma manhã e o início da tarde (até às 14:00 horas)

D – Construção de objetos (Surrão):

Movimentos: Após retirar as fibras já secas, montava-se uma grade de madeira com galhos de marmeleiro de aproximadamente 70 cm. Esta grade era composta de quatro hastes, alinhadas e amarradas nas suas extremidades, de modo a formar um quadro. Tal armação era encostada numa parede, onde se estendiam as primeiras fitas de caroá. As fibras eram esticadas de modo a acompanhar todo o quadro e, ao chegarem, em cada um dos cantos eram amarradas com barbantes. O passo seguinte era o de colocar fibras torcidas de forma vertical até encher todo o espaço do quadro, amarrando-as nas partes superiores e inferiores da armação. Depois se enfiava uma outra fita de caroá em uma agulha de madeira e alinhavavam-se de forma horizontal aquelas primeiras fibras que ficaram dispostas verticalmente. O percurso seguido pela agulha era: uma primeira passagem alinhavando (zigue-zague), e uma segunda (voltando) somente por dentro das fitas verticais (sem entrelaçamento).
OBS: O trançado começava com a artesã sentada no chão, depois à medida que subia a parte tecida era necessário sentar num banquinho de madeira para alcançar a altura desejada. Sempre que a fita da agulha acabava era colocada uma nova

Acabamentos: Para agrupar melhor os pontos da tela era necessário usar uma pequena faca de madeira (pouco pesada) e após produzir a malha da qual se construiria o surrão, arrematava-se as pontas de fibras que restavam para evitar que fossem desmontadas. A “folha” de caroá tecida era então dobrada ao meio e das três extremidades restantes costurava-se duas, ficando aberta a boca do surrão.
Tempo: A produção das peças iniciava-se por volta das 18h estendendo-se até o final da noite.

INSTRUMENTOS DE TRABALHO

Agulha de madeira: com cerca de 10 cm , possuía a ponta torta e era fabricada pela própria artesã.
Banco de madeira: pequeno assento utilizado num segundo momento, quando não dava mais para a artesã tecer sentada no chão.
Faca de madeira: de pequeno porte, possuía também um certo peso para apertar melhor a trama de caroá que se tecia.

GLOSSÁRIO

Boca do surrão - abertura do saco.
Capanga - bolsa pequena usada a tiracolo.
Fita de caroá - quantidade de fibras retiradas de uma única folha de caroá.
Folha - tela que se tece (de 40 cm a 70 cm) para depois dobrar e costurar dos dois lados e montar o surrão.
Jogo de surrão - dois surrões.
Mói - grupo de fitas de caroá, molho, reunião de muitas fibras.
Surrão - espécie de saco feito de caroá.

QUESTIONÁRIO

1. Quem participava?
Dona Jovina Maria de Souza e seu esposo Pedro de Souza.

2. Como era feita a divisão das tarefas?
Dona Jovina
- Coletava e preparava a fibra do caroá.
- Fabricava surrões, capangas e cordas.
Seu Pedro
- Coletava e preparava a fibra do caroá.
- Acendia e mantinha o fogo para iluminar a produção noturna executada pela esposa.
- Comercializava as peças.

3. Quando acontecia a produção das peças?
No inverno, porque no período da seca o caroá estava muito fechado.

  1. Qual era a quantidade vendida?

Semanalmente cerca de dois surrões, cinco capangas e dez braças de corda.

  1. Onde era vendido?

Na Feira de São Raimundo Nonato (aos sábados), nas Lages e na Lagoa do João.

 

Colheita de Caroá - Processo de retirada das fibras.

 

 

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