3.6 - Técnica da Tinta

INVENTARIANTE: Nívia Paula Dias de Assis
PRODUTO: Tintura – Tinta de Catinga de Porco
INFORMANTE: Vasty Dias Olveira
IDADE: 67 anos
LOCALIDADE: Dom Inocêncio – PI
DATA: 26/11/2006

RELEVÂNCIA DO REGISTRO:

Até os anos 70, o uso do luto era uma tradição muito respeitada pelos sertanejos. O falecimento de irmãos ou avós implicava em 6 meses usando roupas pretas; de pai ou mãe, um ano, e de esposo ou esposa, por tempo indeterminado.
Neste contexto a árvore Catinga de Porco era bastante utilizada na produção de uma tintura de tonalidade escura. Como a maioria das mulheres do sertão não dispunha de condições para adquirir bruscamente com peças de roupas novas; logo a tintura da madeira era utilizada para tingir as roupas claras que já possuíam, possibilitando a preservação do costume de manifestar o sentimento de tristeza também através da vestimenta.

DESCRIÇÃO COMPLETA:

A - Características:
1. Árvore: Catinga de Porco (Cróton adenocalyx)
2.Critérios para a seleção: As árvores quando ainda estavam com a folhagem verde..
3. Parte aproveitada: As cascas do tronco.

B – Extração:
1-Local de retirada: Na Serra dos Pereiras e na Serra do Riachinho, em Dom Inocêncio-PI.
2-Coleta: Com um facão ou machado cortava-se a quantidade de cascas desejada. Esta variava de acordo com o total de peças que se desejava tingir.
Movimento nº 1: Dava-se um primeiro corte no tronco da árvore (machado ou facão) no sentido horizontal (20 cm), indicando o local onde se iniciaria a retirada das cascas.
Movimento nº 2: Com as mãos puxava-se verticalmente de cima para baixo os pedaços de casca, que variavam de cm a 40 cm.
Movimento nº 3; Para soltar os pedaços de casca da árvore, dava-se um novo corte horizontal, de modo a fazer com que caíssem no chão.
Tempo: De 1h a 1:30 hs.
Transporte: Eram transportadas nas garupas dos jumentos.
OBS. O uso de animais para o transporte ocorria devido a distancia das árvores e não ao tamanho da carga.

C – Preparação da tinta:
Movimento nº 1: Ao chegar em casa, as cascas eram colocadas numa panela de ferro (25 cm de altura e diâmetro 40 cm) com 4 ou 5 litros de água que era levada ao fogo (fogão de lenha).
Movimento nº 2: Mexia-se com um pedaço de pau (50 cm) para que o pigmento desprendesse das cascas com mais facilidade.
Tempo: As cascas cozinhavam por 20 minutos.

D – Processo de tingimento:
Movimento nº 1: Após preparar a tintura, as cascas eram retiradas da panela.
Movimento nº 2: Mergulhavam peças de roupa na panela e continuavam mexendo.
Tempo: As roupas eram ferventadas por 30 minutos.
Movimento nº 3: As peças eram retiradas da tintura, enxaguadas e postas ao sol para secar.
OBS: Um outro elemento que poderia ser usado neste processo de forma complementar ou substituindo a Catinga de Porco, era a lama escura coletada no fundo de lagoas ou poços. No primeiro caso, era utilizada como fixadora de tinta, sendo acrescentada à mesma quando as roupas eram postas de molho. Já no segundo, as roupas eram simplesmente impregnadas com várias camadas de lama escura e postas para secar ao sol.

3-  Instrumentos de trabalho:

Facão: Faca de maior porte, utilizada para cortar o tronco da árvore. Quando o sertanejo vai para a mata, ele sempre está acompanhado de um.
Machado: Instrumento cortante usado para retirar a casca da árvore.
Mexedor: Pedaço de madeira com aproximadamente 50 cm, utilizado para mexer a tinta.
Panela de ferro: Panela de maior porte utilizada para fazer a tinta.

4-Glossário:

Enxaguadas: Roupas passadas em várias águas para retirar o excesso da tinta.
Garupa: Parte superior do corpo de jumento, onde eram colocadas as cascas da catinga de porco.
Lama: Argila muito mole e escura que fica no fundo dos poços e lagoas.
Luto: Uso do traje preto para expressar o sentimento de dor pela perda de uma pessoa querida.
Pôr de molho: Deixar a roupa durante um certo período de tempo dentro da água.

5- Questionário:

1-Quem participa?
Dona Francisca Maria de Souza (avó de Dona Vasty) e seus filhos.

2- Quando acontecia a produção?
A mesma era produzida para cumprir a tradição do uso do luto. As mulheres mais velhas costumavam fabricar para o consumo de sua própria família e sempre que era solicitada por amigos e vizinhos. Dona Francisca não cobrava pelo serviço prestado.
3- Como era feita a divisão das tarefas?
Dona Francisca Maria de Souza
- preparava a tinta
- tingia as peças
Filhos: Tiago Pereira da Silva e José Pereira da Silva
-cortavam e transportavam as peças

 

 

Fumdham © 2008