3.1 - Técnica da Cerâmica

INVENTARIANTE: Nívia Paula Dias de Assis
PRODUTO: Cerâmica
INFORMANTE: Maria Emília de Jesus (Dona Roxinha)
IDADE: 60 anos
LOCALIDADE: Lagoinha – Coronel José Dias – PI
DATA: 20/10/2006

RELEVÂNCIA DO REGISTRO:

        Consiste em descrever o processo de fabricação dos vasilhames de argila, nos arredores do atual Parque nacional Serra da Capivara, em meados do século XX. Para tanto, verifica-se a transmissão do “saber fazer”, por pelo menos três gerações, onde somente mulheres executavam-no: Dona Joana de Jesus ensinou sua filha Cipriana de Jesus e esta repassou os conhecimentos para a filha dela Maria Emília de Jesus.

DESCRIÇÃO COMPLETA:

A - Características da argila:
1. Cor: marrom claro
2. Quantidade: para um dia de serviço uma caixa de madeira com argila com ≅ cinco baldes pequenos.
3. Transporte: As caixas de madeira eram carregadas em cima de jumento presas com cordas em cangaias.
4. Local onde era retirado: Veredas à aproximadamente duas léguas da casa (Lagoinha – Coronel José Dias).
5. Mistura/ tempero: Não se usava, pois a argila já era considerada boa o suficiente, bastando acrescentar água (2 cabaças de água ≅ 5l).

B - Processo para a transformação do barro em massa:

1. Pisar (pilar):

  1. Movimento: sentava-se no chão colocando a argila seca dentro do pilão; em seguida socava-se a mesma com a mão de pilão.
  2. Tempo: Pra processar cinco baldes de argila demorava aproximadamente duas horas.
  3. Instrumentos: Pilão (tronco deitado com uma cavidade esculpida numa das extremidades); mão-de-pilão (espécie de socador ou porrete de aproximadamente 1m, com duas extremidades arredondadas); pá (haste de aproximadamente três palmos, com uma das extremidades achatada e outra arredondada, usada para mexer a argila seca pisada no pilão).
  4.  

2. Peneirar:

  1. Movimento: Ainda sentada no chão peneirava porções já piladas (pisadas) de argila seca, dentro de uma gamela de madeira.
  2. Instrumentos: peneira de ferro (placa de latão com vários furos e moldurada em duas extremidades com hastes estreitas de madeira); gamela da madeira (50 cm de comprimento e 40cm de largura).

3. Molhar:

  1. Movimento: Pegava-se a gamela com a argila peneirada e acrescentava-se água aos poucos mexendo com a pá, em seguida começava-se a amassar com as mãos.
  2. Tempo: Trinta minutos (molhando e amassando conforme a consistência desejada).
  3. Utilizava-se um pano úmido para cobrir a massa e deixá-la em descanso.

Obs: Consistência desejada: quando a massa adquiria um ponto intermediário nem muito mole, nem dura ou ressecada.

C – Processo de modelar os objetos:

1. Separação dos pedaços de massa:

  1. Movimento: dividiam-se manualmente pequenos pedaços de argila até formar o objeto desejado: Mais de 3 kg para fazer um pote;

2 kg para fazer um aribé;
1 kg para fazer uma tigela.

  1. Instrumentos: somente as mãos.

2. Arredondamento dos pedaços de argila:

  1. Movimento: esfregava-se e pressionava-se a argila com as duas mãos.

3. Montagem sobre a(s) tábua(s) redondas:

  1. Movimento: Após colocar a massa sobre a(s) tábua(s) furava-se a mesma no seu  centro com os três dedos maiores (indicador, anelar e médio). Em seguida pressionava-se a cratera que se formava através de movimentos sutis, de “baixo para cima”. Tudo isto girando a massa em processo de modelagem, através da movimentação (rodar) das tábuas que lhe serviam de suporte.

4. Acabamentos:

1-Enlarguecimento:

  1. Movimentos: Puxava-se e rodava-se a peça já pré-moldada, pelo seu lado interno com o dedo indicador dobrado; depois com um coité e sempre no sentido horizontal.
  2. Instrumentos: Coité - Caco de cabaça (Lagenaria sericea) para fabricar uma cumbuca. Rodava-se o coité pressionando a massa moldada pelo lado interno, no sentido horizontal. Já no aribé, o movimento com o coité era no sentido vertical, de “baixo para cima”, mas também internamente.)

2-Primeiro alisamento:

  1. Movimento: Lado interno (molhavam-se o coité e com ele alisavam-se o vasilhame com movimentos sutis de baixo para cima e sempre rodando a peça). Lado externo (realizavam-se movimentos sutis “de baixo para cima”, primeiro com as mãos umedecidas e depois com um sabugo de milho.)

3-Reparos:

  1. Cortar: Com uma faca de madeira retiravam-se os excessos da borda (beiradas).
  2. Retoques: Finalizava-se a modelagem passando os dedos molhados na peça.

4-Segundo alisamento:

  1. Movimento: Somente no lado externo (molhava-se uma semente de mucunã (Dioclea grandiflora), em seguida passava-se a mesma na superfície do vasilhame para retirar as marcas do sabugo de milho).

5-Tempo estipulado para o processo total: 3 ou 4 dias

1º dia: Arrancava-se a argila a partir das 8 horas da manhã, transportando-a em seguida. Ao chegar em casa já começava a prepará-la, fazendo pausa para o almoço e logo em seguida voltando ao procedimento; daí trabalhavam até às 15h.

2º dia: Iniciava-se a modelagem às 7 horas, fazendo pausa na hora do almoço. Ao retornar, modelavam peças até as 16 horas.

3º dia: Durante o dia a lenha era coletada e a fogueira organizada. Somente quando a noite chegava é que as peças eram queimadas.

D – Descrição da queima:

● Os homens cortavam a lenha proveniente de galhos secos de favela (Cnidoscolus phyllacanthus) e imburana (Amburana cearensis).
● As mulheres (especificamente a matriarca do processo) organizavam a primeira fogueira para obter brasa.
● Sobre as brasas, as peças que já tinham sido retocadas e secas por quase um dia, eram organizadas com a borda para baixo, também pela matriarca. Em seguida ela colocava cuidadosamente mais galhos leves e secos sobre os vasilhames.
● As brasas tinham a função de cozer os vasilhames por dentro; já o fogo, que se formava nos galhos superficiais espalhava suas labaredas lentamente até o momento em que cobria toda a “organização montada” (peças dispostas sobre as brasas).
● Quando as chamas baixavam, as peças eram retiradas com varas grandes e resistentes, também pelas matriarcas do processo.
OBS: Para comprovar uma boa queima, as peças deveriam “trincar”, ou seja, emitir um som característico ao serem golpeadas com os dedos da matriarca.

INSTRUMENTOS DE TRABALHO:

Caroço de mucunã – molhava-se a semente e a mesma era utilizada na superfície externa da peça para retirar as marcas do sabugo de milho.
Coité – era um pedaço de cabaça usado para alisar a argila na parte interna quando ainda está molhada. Em Conceição da Crioulas, Pernambuco, este instrumento é chamado coipemba.
Faca de madeira – para retirar o excesso da borda da louça.
Gamela de madeira – vasilhame onde se amassava a argila.
– utilizada para mexer a argila seca no pilão.
Pano úmido – utilizado para cobrir a argila e deixa-la em descanso.
Peneira - geralmente de alumínio aproveitado da reciclagem de latas de óleo ou querosene.
Pilão – feito de madeira e era utilizado para pisar a argila seca.
Sabugo de milho – utilizado também para alisar a cerâmica, dando um aspecto de escovado.

 

GLOSSÁRIO:

Aió - espécie de cesta sem alça utilizada para transportar alimentos e utensílios. É muito comum a sua utilização na região de São Raimundo Nonato, principalmente em cangalhas em lombos de burros. Durante muito tempo foi utilizada pelos moradores do interior do município para o transporte de mercadorias que seriam vendidas em feiras livres como rapadura, farinha etc. Era utilizado também para transportar crianças.
Aribé – espécie de tigela redonda e grande feita de cerâmica.
Butija – espécie de moringa de água feita de cerâmica.
Gamela – vasilhame de porte médio geralmente feito de madeira.
Labaredas- grande chama de fogo.
Loiça – cerâmica.
Loiceira – ceramista.
Pote- recipiente feito de cerâmica e utilizado para armazenar água para o consumo diário.Geralmente mediam 50cm de altura.
Trincar- barulho emitido quando se bate a ponta do dedo em determinado objeto.
Veredas- Terreno ácido, sem muita fertilidade, com árvores dispersas e de porte menor.

 

QUESTIONÁRIO

  1. Quem participava?

Quatro indivíduos de uma mesma família: Cipriana de Jesus (mãe); Maria Emília de Jesus (filha mais velha); Rufino Guabiraba (pai) e Abílio Guabiraba (filho mais velho).

  1. Como era feita a divisão das tarefas?

MÃE: Cipriana de Jesus
- Identificava o material adequado: dirigia-se ao local de coleta para selecionar a argila
- Peneirava, molhava, amassava, dividia e modelava a argila.
- Organizava a fogueira.
- Comercializava os vasilhames.
- Organizava as peças para comercialização; forrava os aiós com panos e tangas de rede, para empilhar cuidadosamente os vasilhames.
FILHA MAIS VELHA: Maria Emília de Jesus
- Pisava (pilava) a argila.
- Efetivava os afazeres domésticos.
- Cuidava dos irmãos menores.
OBS: Ainda assim, prestava atenção nos passos do ofício da mãe.
PAI: Rufino Guabiraba      
- Cavava e transportava a argila.
- procurava, cortava e transportava madeira para a queima das peças.
OBS: O transporte era feito por jumentos, através de cangalhas:
- Para a argila → duas caixas de madeira
- Para a lenha → dois aiós (cipó)
* Ambos presos às cangalhas.
FILHO: Abílio Guabiraba
- Ajudava o pai a procurar, cortar e transportar a madeira.

  1. Quando acontecia a produção de louças (vasilhames)?

Em tempo de seca, porque no inverno a lenha molhava impedindo uma boa queima. Além disso, a argila não secava devidamente e sua umidade implicava em rachaduras nas peças. No inverno também toda a família dedicava-se aos serviços da roça: plantar, capinar e colher.

  1. Qual era a quantidade vendida?

Duas cargas de aiós por semana.

  1. Onde era vendido?

Na feira da Várzea Grande e na casa da fabricante. Eram vendidas peças avulsas e também por encomenda.

  1. Quem eram os compradores?

Consumidores da feira em geral e principalmente fazendeiros.

Alguns casais de fazendeiros citados

  1. Ângelo Virgulino e Maria das Dores (Dona Dandô), Fazenda Veneza.
  2. “Seu Quintino e Dona Bibiana”, Fazenda Santo Antonio.
  3. José Paulino Oliveira e Dona Elvira.
  4. Abdias Oliveira e Dona Maria.
  5. “Seu Filó e Dona Alaudiana (Dona Ladô)”.
  6. Artur Paulino e Dona Emília, Fazenda Casa Nova.
  1. Preços?

Vasilhas pequenas – 1 mil réis ≅ 1 real
Vasilhas médias – 2 mil réis ≅ 2 reais
Vasilhas grandes – 3 mil réis ≅ 3 reais

  1. Outras informações sobre a produção e comercialização dos vasilhames.

A profissão era denominada “loiceira” (louceira) e somente as mulheres executavam-na; era passada de mãe para filha: Dona Joana de Jesus ensinou Dona Cipriana de Jesus, que ensinou sua filha Maria Emília de Jesus.
Dona Maria Emília fazia peças mais simples (menores), já sua mãe executava todos os tipos: panelas, potes, tigelas, aribés (espécie de gamela redonda e de barro), butija (moringa de barro). OBS: Dona Maria Emília não fazia butija.
Os potes que fabricavam podiam ser de boca larga (para armazenar leite: 8 litros, 10 litros, 5 litros ou 3 litros), ou de boca estreita (para armazenar água – 10 litros ou 5 litros).
Os utensílios de barro eram vendidos nas casas por Dona Cipriana de Jesus e seus filhos, ou na feira da Várzea Grande.
Quando o inverno tardava, a família aceitava a troca por alimentos (milho, feijão, arroz, carne, requeijão, manteiga, borra, leite e etc.).

 

 

Fumdham © 2008