2 - Contos e Lendas

Por serem transmitidos de forma oral, os contos e as lendas modificam-se com o decorrer do tempo através de um processo de incorporações de novos valores e da própria reelaboração individual e coletiva, adquirem novas roupagens, mas na maioria das vezes não perdem eixo principal – a mensagem transmitida.

Muitos dos contos populares observados ainda hoje na área de entorno do Parque Nacional Serra da Capivara são versões adaptadas de lendas medievais trazido ao Novo mundo pelos europeus, como os contos sobre lobisomem ou contos de origem nacional, como o conto da Caipora, aqui foram recriados, adquiriram novos sotaques, feitos e jeitos na produção dos contadores.

Contos :


O Pé-de-Garrafa

É um monstro que assombra o sertão. Suas pegadas são redondas, lembram o fundo de uma garrafa. Solta gritos amedrontadores. Multiplicado em várias direções, eles atordoam e enlouquecem quem os ouve.


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Quem conta: Raimundo Zilton
Localidade: São Raimundo Nonato PI
Narrativa: O senhor Raimundo Negreiros, conta a história do chamado "Pé-de-garrafa", cuja principal característica era a pegada em forma de garrafa que este deixava por onde passava. Segundo o entrevistado, o "pé-de-garrafa" foi até associado ao "Come-popa", que era uma estranha onça que apareceu por volta de 1950. Mas, o Sr. Raimundo afirma que esses seres não têm nada a ver um com o outro, sendo o primeiro fictício e o segundo tratando-se de um caso verídico. O informante avisa que a lenda do "Pé-de-garrafa" é muito difundida em São Raimundo Nonato, mas ele não tem muitas informações sobre ela.

Quem conta: Sr. Nilson
Localidade: São Raimundo Nonato - PI
Narrativa: Em 2002 faz pouco tempo, eu vi uns pés de garrafa redondinhos, foi tirado até foto, eu também vi o bicho, mas ele quando me viu saiu caminhando e entrou no mato.

 

O Fura-Pés

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É um monstro parecido com um bode. Ele vive debaixo da terra. E fura os pés de quem anda descalço.

Quem conta: Neusa de Sousa e Ednalva de Sousa
Aonde: Dom Inocêncio - PI
Narrativa: Diz que em pleno séc. XX os pais, para evitar que os filhos andassem descalços inventaram um ser sobrenatural chamado de Fura-Pés, que era um animal semelhante a um bode que andava subterraneamente e se as crianças andassem descalças, ele furava os pés delas.

 

O Gritador

Ser parecido com um burro, mas anda com duas patas, emite um grito ensurdecedor. Esses gritos amedrontavam as pessoas e as faziam se perder nas florestas.


3

Quem Conta: Eliete Maria de Castro e Nazaré Vitória Marques
Localidade: São Raimundo Nonato - PI
Narrativa: quando as pessoas, sejam caçadores ou qualquer pessoa que fosse ao mato, ouviam uma pessoa gritando, com gritos ensurdecedores, porém não se sabia nem quem era, nem de onde vinham esses gritos.

Quem conta: Pedro Alcântara da Silva
Localidade Povoado Zabelê, município de São Raimundo Nonato-PI
Narrativa: Seu Pedro Alcântara da Silva diz que foi derrubar uma roça cerca de três quilômetros de onde ele morava um dia à tarde ele estava pegando feijão, tinha um caldeirão em uma pedra, a mais ou menos 500 m da roça, então ele ouviu um grito, deu outro grito bem mais alto, ele viu que não era gente. Ele diz que naquele tempo existia um bicho que só andava gritando, ele diz que várias pessoas viram esses bichos. Segundo ele o gritador, tinha o rosto de animal, tipo de um burro, mas andava apenas com duas patas, ele tinha o formato de um homem baixo e todo cabeludo. Seu Pedro diz que esse bicho andava gritando no antigo Zabelê á Serra Branca, até o Gongo.

Quem conta: Sr. Nilson
Localidade: São Raimundo Nonato-PI
Narrativa: Em 1974, numa tarde na estrada da Serra Branca pro Angical, avistei um bicho, eu pensava que era um gato, naquele tempo gato valia dinheiro então eu pensei em matá-lo para vender a pele. Quando dei por fé, era um bichão preto cabeludão sentado na beira da estrada, fiquei com tanto medo que não sabia o que fazia. Criei uma coragem e falei com ele, mas ele não falou nada só se levantou. E eu não sabia o que fazia nem podia sair nem ficar, aí tomei outra coragenzinha e aí falei com ele de novo e ele deu um resmungado e correu pela estrada. Essa foi a única vez que vi o gritador, mas já ouvi várias vezes, é um grito de gente mais histérico.

Quem conta: Nivaldo Coelho
Localidade: Barreirinho, Coronel José Dias - PI
Narrativa: Teve um homem aqui perto que viu o Gritador, escutou o grito como se foi o grito de uma pessoa e ele subiu numa árvore e ficou até o galo cantar porque quando já é madrugada e o galo canta essas coisas vão embora.

Quem conta: Julio
Localidade: São Raimundo Nonatos - PI
Narrativa: Eu vi perto do Baixão um bicho grande parecendo um urso, ele ficou acuado pelos cachorrosem cima de uma árvore. Ele tinha mais ou menos um metro e quarenta de altura, eu não cheguei ver o rastro dele para saber se era o gritador, os outros dizem que era o gritador, mas eu tenho pra mim que era um urso.


A Porca da Boca da Noite

A porca aparece sempre a noite, diz o conto que uma mulher se transforma a noite em uma grande porca e sai correndo atrás das pessoas.


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Quem Conta: Raimundo Zilton
Localidade: São Raimundo Nonato - PI
Narrativa: Seu Raimundo comenta que desde criança quando morava aqui na região, seus pais falavam que não podiam sair a noite, pois havia na cidade uma porca que atacava as pessoas, o nome dela era a "Porca da boca da Noite". Ele conta que a verdade é que quando as pessoas da cidade e nesse caso os pais dele, não queriam que seus filhos saíssem de casa, aproveitaram-se de uma história real, onde uma porca estava doente de raiva, assim como a raiva bovina, e assim inventaram essa história da "Porca da Boca da Noite"

Quem Conta: Albertina Araújo Landim
Localidade: São Raimundo Nonato-PI
Narrativa: A porca da meia da noite, era uma mulher que por ter abusado sexualmente seu filho, virava uma porca. A mesma quando ia virar porca, se esfregava no local onde um jumento já tinha deitado, e quando alguém a feria, seja com uma faca ou até mesmo com um revolve, sem que ninguém a reconhecesse, mas no dia seguinte a mulher ficava com o mesmo ferimento.

Quem Conta: Bernadete Pereira Alves
Localidade: São Raimundo Nonato - PI
Narrativa: Eu vi uma porca, essa era um lobisomem na época de 1968, no bairro Santa Luzia. Eu estava dentro de casa à noite, deitei pra dormir, ai quando eu levantei então eu vi no muro, aquela porcona grandona, aqueles peitos enorme, dois dentões do lado de fora da boca, ai eu disse: meu Deus que porca é essa que eu nunca vi por aqui! Eu peguei um pau e joguei, essa porca saiu igual a uma doida, fedendo enxofre, tinha o pessoal dormindo no meio do terreiro, era tempo de calor, essa porca se jogou para cima do pessoal. Era uma tia minha que estava dormindo, ai essa porca se jogou para cima deles, a minha tia então pegou a esteira e jogou na porca, ela gritou seu filho, mandando trazer a espingarda, então a porca correu e sumiu, ficando um fedor de enxofre, e o pessoal dizendo que era um lobisomem.

Quem Conta: Joana Clara Marques
Localidade: São Raimundo Nonato - PI
Narrativa: Dona Joana relata que "A porca da meia da noite", era uma mulher que por ter abusado sexualmente seu filho, ela virava uma porca feia que corria atrás das pessoas, e se por acaso a porca fosse ferida por uma pessoa, ela desvirava e nunca revelava o seu segredo (de que era uma porca).


O Come-popa

Esta história aparece no município de São Raimundo Nonato. O Come-popa era uma onça grande que atacava os animais das fazendas, mais especificamente os jumentos e dilacerava apenas uma parte do corpo desses animais. O come-popa foi morto pelos caçadores que expuseram sua cabeça, patas e pele na cidade.

5

Quem conta: Raimundo Zilton
Localidade: São Raimundo Nonato-PI
Narrativa: A história contada refere-se a um estranho animal, que apareceu na região de São Raimundo Nonato, na década de 1950. Segundo Sr. Raimundo, o animal tratava-se de uma onça pequena e robusta, apelidada de come-popa, e parecia ser fruto de uma mistura da onça pintada com a sussuarana. O animal teria ganhado esse apelido em função de todos os dias atacar um animal grande, jumento, cavalo ou boi, e comer apenas a coxa do animal. Foi perseguido durante muito tempo, chegando até ser visto por algumas pessoas, inclusive pelo informante, que disse ser o "come-popa" um animal bonito, de pêlo cor grafite e muito brilhante e enormes patas. Após algum tempo, o "come-popa" foi capturado: um homem teria visto atacando um jumento, ele atirou na onça que ainda conseguiu escapar e após quase doze horas foi novamente pega á sete léguas do local onde recebera o primeiro tiro. Depois de morto o animal fora visto por várias pessoas da região. Segundo o senhor Raimundo Negreiros, esta história é verídica, chegando ele mesmo a ver o animal depois de morto. Segundo ele, o "come-popa" não atacava pessoas, apenas animais de grande porte e era muito perseguido em função dos prejuízos que causavam aos donos dos animais.

 

Lendas :

 

Lobisomem

Este conto aparece em várias regiões do mundo. Diz o mito que um homem foi atacado por um lobo numa noite de lua cheia e não morreu, porém desenvolveu a capacidade de transforma-se em lobo nas noites de lua cheia. Nestas noites, o lobisomem ataca todos aqueles que encontram pela frente. Somente um tiro de bala de prata em seu coração seria capaz de matá-lo. Mas a história se transformou em algumas regiões ganhando características locais e um novo enredo.


Quem conta: Antonio Marquês de Sá
Localidade: Canto do Buriti
Narrativa: O lobisomem era um homem que virava bicho quando o pai abusava de sua filha sexualmente. O informante se recorda de um homem que morava na baixa, que era no caminho para a cidade Canto-do-Buriti, Piauí. O mesmo era muito falado, com acusações de ele ser um lobisomem.

Quem conta: Raimundo Zilton
Localidade: São Raimundo Nonato - PI
Narrativa: O senhor Raimundo Negreiros, ao contar a historia do lobisomem que aparecia em São Raimundo Nonato, afirma que este ser era associado a um homem que vivia na região. Segundo ele, o tal homem era "ignorante e maltrapilho" e que costumava passar grande parte do dia sentado em cima de uma árvore. Morava sozinho, não costumava receber visitas e pouco se sabia de sua vida. Segundo o informante, as pessoas contavam que o tal homem transformava-se em lobisomem e, por isso era temido por muitos.

Quem Conta: Cassimiro Brito Silva ou Pombo
Localidade: São Raimundo Nonato - PI
Narrativa: Tinha um padre na cidade chamado Jerônimo que durante as celebrações da missa falava que quando um casal tinha uma má convivência um dos dois poderia se transformar em lobisomem durante a Semana Santa. O senhor Cassimiro conta que era criança quando os pais contavam essa história.

Quem Conta: Nilton Santos
Localidade: São Raimundo Nonato - PI
Narrativa: Em São Raimundo Nonato, na década de 1950, existia um morador do bairro Primavera chamado Zé da Virgem, que segundo as pessoas mais velhas da cidade, durante a época do umbu o dito homem virava lobisomem. Segundo o narrador, quando criança, os pais do Zé da Virgem tomavam conta dos pés de umbuzeiro e não permitiam que ninguém pegasse os umbus. Logo ele começou a se transformar em lobisomem assustando quem encostava-se ao umbuzeiro. Ele faleceu mais ou menos na década de 1990.

Quem Conta: Albertina Araújo Landim
Localidade: São Raimundo Nonato - PI
Narrativa: A narradora conta que já algum tempo havia um senhor chamado Zé da Virgem, morador de um local chamado Barro que se transformava em Lobisomem. Segundo ela o homem na verdade não tinha nada de anormal: as pessoas costumavam relacioná-lo a um lobisomem pelo fato de em uma determinada época do ano (temporada de colheita de umbus) ele costumava ficar pelado em cima de um pé de umbuzeiro na tentativa de evitar que as pessoas fossem lá colher a fruta. O fato do Zé da Virgem ser bastante cabeludo e arredio fazia com que ele fosse comumente comparado ao lobisomem

Quem Conta: Neusa de Sousa Almeida e Ednalva de Sousa Almeida
Localidade: São Raimundo Nonato
Narrativa: Conta-se que nesse local morava uma senhora chamada Maroca que oferecia a alma dos seus filhos ao demônio. Segundo os moradores do local na Semana Santa ela virava lobisomem, com alguma aparência de jumento. Começava a rolar no chão e de repente, ao se levantar já havia obtido a aparência do bicho e saía correndo atrás do povo. Apesar de odiada as pessoas a tratavam com muito respeito, com medo dela rogar uma praga, porque a praga dela pegava. Só os homens tinham coragem de sair na rua época da Semana Santa, e mesmo assim saiam armados. Pra acabar com esse "encanto" na dona Maroca era preciso furá-la com uma faca, mas ninguém até hoje teve coragem, pois segundo a lenda, aquele que fizer isso vai adquirir essa maldição. Dona Maroca já está velhinha, mas até hoje as pessoas têm muito medo dela.

 

Caipora

Também chamada dona do mato ou dona da mata. A caipora é um ente fantástico da mitologia indigena. Sua representação toma formas diversas de acordo com a região onde aparece. Em geral é um ser que apenas permite a entrada em seu território (a mata) se lhe oferecerem fumo, caso isso não aconteça ela é capaz de bater em qualquer um que perturbe seu domínio.

Quem conta: Antonio Marques de Sá
Localidade: Lagoa dos Patos - PI
Narrativa: Certo dia ao ir caçar próximo da Lagoa dos Patos acompanhado de um Senhor chamado Herculano, ambos ouviram um assovio que chamava os cachorros. De acordo com ele, o assovio parecia de gente, os cachorros então corriam na direção ao som e lá eram açoitados pela chamada "Dona do Mato". A informante conta que passou a amarrar os cachorros, sempre que ia caçar, para que a caipora não os pegasse. Ele conta também a história de um caboclo que seguia tangendo caititus, e que certa vez, ao passar embaixo de uma árvore foi atingido com um machado na cabeça pela caipora.

Quem conta: Raimundo Zilton
Localidade: São Raimundo Nonato - PI
Narrativa: A caipora era uma lenda que surgiu através de caçadores, pois quando os mesmos iam caçar, levavam seus cães e soltavam eles na caatinga, os cães voltavam como se estivesse com medo e que uma mulher com um cachimbo na mão aparecia, essa era a descrição da caipora segundo os caçadores.

Quem conta: Hilda Ferreira
Localidade: São Raimundo Nonato - PI
Narrativa: A caipora é a dona da mata e no dia que está zangada, se o caçador não levar fumo para ela, apanha o caçador e o cachorro, neste dia nem precisa insistir nem precisa insistir que ninguém pega nada, pois a dona da caça esconde tudo.

Quem conta: Pedro Alcântara da Silva
Localidade: São Raimundo Nonato - Pi
Narrativa: diz que tinha um tio que era caçador, seu nome era Manoel Domingo, ele só caçava no Caldeirão Grande. Quando foi uma vez os cachorros correram atrás de um bicho, logo os cachorros começaram a gritar, ele correu para lá quando e quando chegaram os cachorros estavam bem amarradinhos de caroá e inchados de tanto apanharem. Ele diz que era a caipora, pois ela é também é dona do mato.

Quem conta: Nivaldo Coelho
Localidade: Barreirinho, Coronel José Dias - PI
Narrativa: Um cunhado meu via os cachorros sento chicoteado e os cachorros corriam para os pés dele, ele olhava o mato, mas não via nada. Então ele veio embora porque no dia em que a Caipora está assim é melhor ir embora.

 

 

Nivaldo Coelho - contador de histórias

 

Ana Shirley de Castro - contadora de histórias

 

Euvaldo Dias Negreiros - contador de histórias

 

 

 

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